Sobre os partos, partidas e partilhas
Las Lunas de Marzo
Zé Luiz do Candeeiro
Tu és meu desencaixe perfeito
Se encaixando perfeitamente
Nas minhas tantas imperfeições
Tu não és certeza, tu és natureza
Nas revoluções do tempo
Sendo, em todas as direções.
Poesis
Zé Luiz do Candeeiro
Quando o poema é maior que seu autor,
ele não se permite escrever:
é um parto
que parte ao meio,
sem censura,
a alma desnuda,
rompendo o cordão dos sentimentos
para voar
e virar
cordel.
Saramandaia
Zé Luiz do Candeeiro
O petricor
entrou pelas narinas
enquanto dormia.
Um arranjo
lindamente estranho
para o último dia.
Terminar agosto
com o gosto
da chuva que caía.
No último suspiro
daquele inverno
que morria.
Para dar vida
à primavera quente
que o Cariri prenuncia.
Era um sonho,
com todos
os anjos e demônios
que nele havia.
Eram as águas passadas
no mesmo rio
que subia.
Eram as verdades
desenterrando a alma nua
na terra fria.
Era o petricor,
dentro do sonho;
fora dele, chovia.
Pedra, papel e tesoura
Zé Luiz do Candeeiro
A tesoura
do desejo
ficou cega
quando
a pedra
de amolar
da fantasia
estilhaçou-se
no papel
de enrolar
prego
que é a realidade.
Teogonia do fim
Zé Luiz do Candeeiro
Não por acaso,
acaso improvável
não fosse,
que nos dias
mais duros
a esperança
resignada
age em silêncio,
nos oferecendo
a leveza
da coragem
para continuar.
Silente,
ela calará
aquele velho
discurso do medo,
de que o fim
se aproxima.
Eu sei que ele
há de chegar.
Mas não me
encontrará
sozinho.
Não me
achará
facilmente
paralisado,
espelhado
na tela do celular.
Talvez ferido,
cansado, porém
jamais entregue
com a cabeça
numa bandeja.
Vestido de paz,
que paz nenhuma
poderá explicar.
Terá que antes
ouvir meu riso,
enxergar o colorido
dos dias cinzas
que só meus olhos
e os dos meus afetos
podem enxergar.
A isto,
uns chamam fé,
outros, amor;
de esperança
também é chamada.
Eu, poeta que sou,
não digo nada.