SERENIDADE COMO PERCEPÇÃO DE SI:
ensaio sobre a existência estética da serenidade
SERENIDADE COMO PERCEPÇÃO DE SI: ensaio sobre a existência estética da serenidade
Ando transformando, transpondo, conjugando experiências do passado, presente e futuro no verbo existir.
A palavra é uma tecnologia densa: dela nascem mundos, erguem-se civilizações, criam-se sistemas culturais complexos, resiste-se, sonha-se, mas também se implodem universos inteiros. É o início de tudo, como o Verbo encarnado, porém também a própria “Estrela da Morte”.
Este prólogo serve-me, depois do uso ligeiramente exagerado da partícula “se”, para diferenciar, na língua portuguesa, a percepção sobre a qual gostaria de discorrer neste texto. O som do si, que encontra alguma correspondência conceitual no self da língua inglesa, aproxima-se do nosso “se”, mas a direção e a função dessas palavras são completamente diferentes. Enquanto o “se” pode deslocar, indeterminar ou apagar o agente da ação, o si aponta em direção ao próprio sujeito e a todas as relações que nascem, eclodem, naturalizam-se ou desaparecem dentro e a partir de “si”.
Aqui, coloco-me inteiramente à disposição da praxeologia de Yves Chevallard. Sim, porque as tecnologias, assim como a palavra, podem criar, justificar, alargar ou rejeitar técnicas. E talvez pensar a palavra como tecnologia, dentro do ensaio praxeológico da Pedagogia da Serenidade, sirva para reafirmá-la como movimento reflexivo.
Porque, como diria Marcel Mauss, quem pratica ou vive um sistema praxeológico é um homem total, portanto, biológico, social e psicológico. Agora, sem nenhum pudor, permitam-me reler Mauss e acrescentar a essa totalidade um novo qualificativo, o de “ser total”, que, além das categorias de Mauss, comporta, para mim, as categorias afetiva e espiritual. A primeira, no campo das emoções, que são psicológicas, neurológicas, mas também ambientais, ou seja, como percepção de tudo que nos afeta. A última, por sua vez, não é tomada no sentido religioso dogmático de algumas instituições, mas no sentido da transcendência e da dimensão cosmológica do ser.
O que é Deus para mim pode não ser para você. Não se trata de relatividade espiritual, mas da negação de que minha experiência sagrada deva coincidir com a sua. Ambos somos seres espirituais a partir de nossas experiências próprias, que, muitas vezes, residem na vida em comunidade, na solidão da busca ou na negação da própria espiritualidade.
Pensando ainda na dimensão espiritual, posso tentar ser mais prático e dizer que Jesus tem um significado para mim; Maria, a mulher e mãe de Deus na religião cristã, também. Assim como a força dos ventos e das águas, a sacralidade das plantas, da vida e da contemplação em sua plenitude, a sabedoria ancestral dos pretos velhos e a encarnação do meu espírito cósmico em mim e nos mundos que me habitam.
Esse acréscimo ao conceito de homem total de Mauss é parte do movimento. Portanto, na Pedagogia da Serenidade, as praxeologias primordiais são praticadas pelo ser total (biológico, social, psicológico, afetivo e espiritual).
Como ser total, ao escolher o descanso, compreendo que, ao executar essa tarefa, mobilizo cada uma dessas dimensões que fazem parte da constituição do meu ser. Portanto, preciso sentir e observar cada célula biológica do meu organismo. Descansar é dar-me o direito de controlar a respiração, canalizar e direcionar minha atenção para o meu corpo. Ao mesmo tempo, o descanso exige posicionamento e negociações, já que, como ser social, preciso transitar nas relações que me rodeiam, seja na dimensão pessoal ou institucional. Aqui, meu desejo, minhas fantasias e minhas crenças começam a operar em favor ou em desfavor dessa tarefa. Portanto, além da psicologia que me é inerente, há também a necessária percepção dos afetos a que a tarefa do descanso me impele. Quando descanso, o quê ou quem afeto? Quem ou quê me afeta? Por fim, fechando ou não essa totalidade do ser, qual o sentido espiritual do meu descanso?
De novo, reafirmo que meu espírito precisa descansar. O descanso se tornou um canal para Deus, como eu o concebo. Aqui, acosto-me, ainda de forma incipiente, à “atenção como oração”, no sentido atribuído por Simone Weil, relida e apresentada a mim por Byung-Chul Han em sua obra mais recente. Para ter e praticar atenção nessa intensidade, preciso descansar.
Esse movimento funciona porque já não consigo parar por aí. Por essa razão, a Pedagogia da Serenidade é um movimento reflexivo próprio que se opõe à sociedade do cansaço, que reivindica o direito ao sonho, que se orienta pela ética universal de Freire, que vê na esperança ativa um caminho para vencer a sociedade do medo, mas que também precisa constituir-se e virar uma práxis diária ante os mecanismos do mundo contemporâneo como ele se apresenta.
Mas de onde vem tudo isso? Do ser desejante. Foi ele que me moveu para uma resposta que eu ainda não tinha, nem tenho. Por exemplo, foi movido pelo desejo que tentei definir a Pedagogia da Serenidade a partir de uma conversa com uma interlocutora privilegiada. A professora Gilmara Meira fez-me a pergunta primordial: “O que é Pedagogia da Serenidade?”. Tomei coragem, arrisquei-me e escrevi o texto naquela semana. E já não posso me desvencilhar do que produzi. Falar da ontologia, da epistemologia e da política presentes nesse movimento alçou um voo que talvez, somente talvez, por um segundo eu não tenha realmente planejado. Porque o desejo, às vezes oculto e agora declarado, move nossas ações, ainda que não o percebamos conscientemente.
De novo, o passado é reexaminado no divã da tela deste computador. Para reafirmar que, no presente, a Pedagogia da Serenidade não é simplesmente o que é, pois, sendo eu quem escreve sobre ela, movido, portanto, por desejos, fantasias, medos, ignorância e afetos, só me resta, e o que resta é muito, apresentar sua estética, escrevendo o futuro agora.
Essa estética nasce da aisthesis, que carrega em sua acepção a percepção sensível do mundo, mas também da poíesis, que se traduz, para mim, numa práxis poética, reificada na palavra, mas também nos movimentos da vida. Uma pergunta de valor praxeológico para você, gentil leitor(a): qual a natureza da sua poíesis? Qual estética lhe move? De que é feita a palavra, enquanto metáfora tecnológica, da sua própria práxis?
Observa-se aqui que a criação, como dimensão de minha existência, não é um imperativo, mas consequência da estética que escolhi. De novo, Simone e Han vêm aos meus ouvidos dizer: além da atenção, é preciso descriar-se. Alcança-se Deus por meio da atenção plena, que leva à descriação. Mas o mesmo descanso que me permite a atenção também me move na direção de perceber-se, de olhar para si como imagem à semelhança da divindade, que, por querer não ser nada, também acaba sendo, toda vez que se percebe, acolhe-se e volta-se à palavra como sendo sua expressão.
Portanto, minha práxis, minha espiritualidade, convergem para a dimensão da minha arte. A minha arte não se resume à poesia, mas se emprenha dela em tudo que faço. Quando canto, sou poeta; quando leciono, também; quando escrevo artigos acadêmicos; quando me reinvento na palhaçaria; mas também quando descanso.
E foi como poeta que decidi descansar, em oposição à sociedade do cansaço.
A contemplação me conduziu nesse processo. A inconformação com a certeza do fim como ele se apresenta. A necessidade de sonhar outros fins. A esperança como ação intencionada ante o medo. A ética universal na Pedagogia da Autonomia.
Comecei decidindo pela sobriedade. Lembro-me de perguntar à minha companheira de 20 anos qual teria sido o ganho e, na percepção dela, foi: presença. Para mim, atenção. Ao longo de um ano, aprendi sobre a biologia, a neurobiologia e a bioquímica do vício. Gabor Maté acompanhou-me. Ao final daquele ano, tive uma pequena epifania que chamei de Retorno: uma jornada sobre serenidade e sobriedade.
Antes dessa decisão, e mesmo depois de um ano sóbrio, alimentei uma crença sobre minha dependência alcoólica e sobre minha capacidade de recuperação. Essa crença estava enviesada. Porque os mecanismos do vício, para mim — e hoje reconheço —, sempre foram além da substância química em si. Isso explica parte do comportamento do meu corpo durante essa luta individual. O viés, em minha percepção, deu-se quando julguei que a sobriedade seria condição suficiente para o reencontro consigo mesmo. Condição, sim, porém suficiente, no meu caso, ela não foi.
O reconhecimento do retorno, portanto, era só um ponto de partida. Nunca de chegada. Foi precioso olhar para si próprio. No espelho da alma. Iluminar cantos da minha existência que meu candeeiro não conseguia clarear sozinho. “Escurecer” para iluminar. Por vezes, a terapia funcionou assim. Como um espaço de descanso que me deu muito trabalho. Porque o ócio do divã nunca foi paralisia.
Assim, a Serenidade é também movimento de descanso reflexivo. Os sentimentos vieram à tona. Revi minha vida como um quebra-cabeça em que as peças, às vezes, mudam ao longo do jogo, encaixando-se ou não na imagem que monto todos os dias de mim mesmo. Some-se a esse processo cada emoção, boa ou ruim, que caminhadas dessa natureza podem trazer. Mas, para mim, há um diferencial com que a sobriedade me presenteou. Foi a possibilidade de viver essa experiência com todas as dores e prazeres que ela poderia trazer, sem anestesia, a ponto cru. Vivo.
As fantasias que sustentaram meus desejos; os desejos que motivaram decisões e escolhas; o reconhecimento de faltas, padrões e comportamentos, antigos e recentes. Tudo estava ao meu alcance. Mas onde o desejo se esconde? O que resta?
Lucidez, eis minha nova fantasia. Dela descobri a anatomia de minha ética, que se orienta pelo que é universal em Paulo Freire, mas atende também à minha experiência pessoal. Porque a lucidez me mostrou que a mecânica do comportamento e do sistema de recompensas não pode ser reduzida somente à bioquímica: é uma matemática complexa, por vezes, ainda por inventar. E, como matemática, é linguagem humana: há sempre uma palavra nova por aprender. E a nova fantasia da lucidez, como toda fantasia, se estilhaça, não é perene, pois nada na vida é.
Serenidade é conhecer a si próprio, mas sem jamais tomar o autoconhecimento como regra vitalícia ou obsessão. Antes de tudo, é o direito ao descanso, à contemplação, mas também ao desconhecimento, à ignorância de ser. Do que vem depois.
Epílogo
“Contentamento descontente”, como o amor de Camões na visceralidade de Renato Russo e sua, nossa Legião Urbana. Mas também no amor ágape de Paulo, dirigido, na sua Carta aos Coríntios. Amor de Paulo Freire, em suas cartas aos/às e pelos/as oprimidos/as.
Não há, portanto, na Pedagogia da Serenidade e em sua estética, requisito de iluminação, mas de sentir/criar/descriar, que se transforma no Existir.
Portanto, no agora, posso repousar meus olhos sobre mim e sobre o mundo que habito, na comunhão que sonho com cada átomo do universo, numa outra fantasia, fantasia de existir, olhando-os sob a lente da Pedagogia da Serenidade. Às vezes, sinto-me como Pedro, a quem Jesus, no mesmo Evangelho, chama de Pedra Fundamental, mas também de Satanás quando este, talvez por amor ao Cristo, tenta demovê-lo da ida a Jerusalém.
Falho, mas fiel a mim, a ponto de olhar para o que escrevi desde março de 2026 diante do desejo visceral de ser lido, de sonhar que isto se torne um livro ou uma publicação, mas, ao mesmo tempo, reconhecendo os velhos mecanismos de recompensa que, por vezes, estão aí engendrados e a serviço da sociedade do desempenho e do medo. Começando a dizer os primeiros grandes “nãos”, quando os “sins” atendem a mecanismos e à lógica do velho e enxarcado capitalismo contemporâneo. Nessas horas, presto “atenção” e imagino o velho e bom Mestre Yoda dizendo:
— Cuidado, jovem Padawan. A Estrela da Morte está sempre à espreita.
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Conheça mais sobre a Pedagogia da Serenidade:
Pedagogia da Serenidade
https://www.zeluizdocandeeiro.com.br/post/39-pedagogia-da-serenidade
Retorno: uma jornada sobre serenidade e sobriedade.
https://www.zeluizdocandeeiro.com.br/post/30-retorno
Pedagogia da Serenidade como Praxis
https://www.zeluizdocandeeiro.com.br/post/36-serenidade-como-praxis
Serenidade e Instituições
https://www.zeluizdocandeeiro.com.br/post/18-serenidade-e-instituicoes