SERENIDADE E INSTITUIÇÕES:
uma breve reflexão sobre a pedagogia da serenidade e o dilema institucional.
SERENIDADE* E INSTITUIÇÕES: uma breve reflexão sobre a pedagogia da serenidade e o dilema institucional.
As instituições pensam, já dizia Mary Douglas! Como agentes de nossa cognição, elas moldam a vida em sociedade. Para poder perpetuar sua mensagem, é preciso torná-la clara, organizar-se e se adaptar para sobreviver. Talvez o advento institucional esteja no cerne da distinção entre a civilização humana e qualquer outra comunidade de seres vivos. Ainda assim, essa distinção não é motivo de meritocracia na natureza. Talvez a nossa natureza biológica, psicológica, afetiva e social seja tão complexa no plano individual que instituições mais “simples”, como colmeias ou alcateias, não sejam suficientes para dar conta da nossa existência.
Por essa razão, as instituições têm um papel fundamental na organização social. Yves Chevallard entendeu isso e trouxe para sua teorização o papel central desses dispositivos sociais totais na difusão dos saberes. Nenhum algoritmo é válido: sem uma organização, a escola ou qualquer outra instituição formativa não prospera. É necessário simplificar (transpor a mensagem), estruturar para manter (estabelecer contratos) e se adaptar (evoluir entre paradigmas).
Mesmo em instituições menos convencionais, sem uma mensagem compreensível, sem regras ou adaptação, não prosperamos. É assim com as ideologias, paradigmas científicos, religiões (ocidentais e orientais), com as famílias, com o trabalho, com nossos relacionamentos e com um sem-fim de instituições. A rejeição total das instituições, para Yves Chevallard, seria o equivalente à morte social da pessoa.
Diante dessa inevitabilidade da morte social e, às vezes, biológica — esta última, a única certeza da natureza humana —, podemos questionar qual é o nosso papel diante do dilema universal da institucionalização. Primeiramente, penso que esse dilema só surge se desenvolvemos essa necessidade.
Por exemplo, na minha experiência pessoal, eu transito diariamente por várias instituições, algumas com relativa tranquilidade, noutras com ares de tensão. Entre a tranquilidade e a tensão da vida institucional, penso o meu papel. Aqui entro no campo da experiência, que não quer ser mais do que um relato, quase poético.
Assombram-me algumas instituições que incluem a narrativa da guerra, do lucro e da alienação como institutos necessários para a prosperidade da humanidade — nesse caso, da sua humanidade. Não se sujeitar a tais instituições seria o primeiro passo, mas elas estão lá. Por vezes, em um nível de amplitude tão grande que interferem em toda uma cadeia institucional: escolas, religiões, famílias, governos, trabalho. Aqui eu lembro da escala de codeterminação didática, outra instituição fundamental para compreender esse tipo de influência.
Daí, para mim, o dilema institucional se instaura como leitura dos tempos em que vivemos. Refiro-me à crise da ética universal na pedagogia de Paulo Freire, ao cansaço social de Byung-Chul Han e à banalização do direito ao sonho e à negativa radical destes tempos, no retorno à nossa casa natural — o planeta Terra —, denunciados em Ailton Krenak.
Dito isso, para qualquer instituição a que eu possa me referir, reclamo a serenidade como sentimento, como postura pessoal. A serenidade para existir e resistir dentro das instituições, para ter direito à contemplação profunda, ao exercício da ética universal e ao direito de sonhar.
Negar certos valores ou lógicas institucionais sem perder de vista o que é bom, o que acrescenta à minha experiência. Não é tomar minha experiência como verdade absoluta, mas como uma força provisória que me move a procurar portas secretas em becos sem saída.
Portanto, o papel do indivíduo e da pessoa é o exercício do direito à crítica institucional. Sem ela, não há ciência, não há religião, não há vida social. Sem ela, não há adaptação. Talvez a ausência de crítica só funcione para os fanáticos, porque nem para as instituições ela funciona.
Pois bem, a pedagogia da serenidade parte do princípio de que a maturidade não é ter certeza, porém fazer dela sua busca. A mudança do mundo a partir de si é lenta. Submete-se à revisão, ao questionamento, mas também à paz que advém da prática da lucidez.
Essa lucidez não é romântica, mas cuidadosa. Não se trata de criar realidades alternativas fechadas em si, assentadas em validações internas que tornem o ser absoluto. É uma lucidez de comunhão, de empatia, que não precisa ser dogmática, mas que respeita, sem relativizar tudo.
Serenidade é a liberdade de abrir e fechar portas, deixando a luz entrar para que se enxergue, apesar dela.
*Pedagogia da Serenidade é um movimento de presença reflexiva própria, que habita o ser poeta&professor.