À Sombra da Amargosa:
poemas do avesso da alma
Arquitetura do Esquecimento
Zé Luiz do Candeeiro
Os sobrados sobram na paisagem,
impedindo a visão da igreja dos pretos.
Os arranha-céus que arranham meus olhos
são palacetes de reis sem memória.
A estética caótica de aço e concreto
escancara a letargia
de um tempo sem memória.
A cacimba, soterrada pelo tempo,
engolida pela areia das construções,
chora a triste sina do velho riacho
sufocado sob as fundações.
Mas o esgoto ainda fede!
Escapa pelas frestas das bocas de lobo
que engolem o lixo
e a esperança.
A cidade não para, não dorme.
Alimentada por cachaça e gasolina,
vara a noite,
cheirando a cocaína,
lembrando que é preciso correr.
Nessa carreira, vejo os Cavaleiros de Metal
violentando as velhas ladeiras,
cuspindo fogo nos céus,
prenunciando o apocalipse do progresso.
As trombetas dos canos de escape
anunciam a violência
de um tempo sem memória.
Agora entendo a compulsão
do casal de idosos
que guarda toda a água que pode
em garrafas amontoadas:
Embaixo da velha pia, onde ainda guardo memórias.
Pelo direito à Paixão
Zé Luiz do Candeeiro
Não, eu não quero a cor da primavera,
Se aos meus olhos escapam a cor dos teus.
Mas, também renuncio ao cinza dos invernos
Caso minha pele não possa arrepiar ao teu toque.
Repito, renegarei até a paz do outono,
Para sentir o calor de tua presença ou frio da tua espera.
Por fim, nesse verão eterno do Piauí,
Prefiro arder ao sol dessa paixão,
que morrer de sede nos lagos da razão.
Os Carcarás
Zé Luiz do Candeeiro
Os carcarás
comem
os restos
mortais
que o progresso
abandona
no grande tapete
de petróleo.
Nesse banquete
putrefato,
lembrem dos
homo-abutres
que, dos seus
palacetes,
só esperam
a carne humana
tombar na
estrada para
lugar nenhum.
Carcará pega,
mata e come.
Abutres matam
o povo de fome
e não comem
porque jazem
empanzinados
de ouro, soberba
e petróleo.