Uni(versos) em mim
Espiral
Zé Luiz do Candeeiro
No princípio nunca foi começo
E o fim nunca irá além de mim.
Poeira na ferrugem ancestral.
Gravura neolítica, política, digital
Bit do computador cósmico
Grão de areia nos circuitos
da placa da mãe natureza
Caos namorando a beleza
De um por do sol no Catimbau
Arame esticado no pau
O som dos gritos silenciosos
Silenciados, nos mistérios gozosos
A parte que cabe o todo
O olhar hipnotizado pelo fogo
A grande roda onde dançam todos nós
A Santa Trindade da História
Sonho, Desejo e Memória
Templo sagrado da divindade
O barro nas mãos do oleiro
A entidade na identidade do terreiro
Batendo palmas para ver Mariquinha
Onde o bem e o mal acham alento
Pedra de sal no relento
Onde a esperança nunca morre
O sol amarelo que socorre
Na espera dos invernos árticos
Calmaria da foz do rio
Que se entrega ao mar frio
Pois já foi lágrima na nascente
Sou sol, estrela, candeeiro no poente
Morrendo a cada paixão
Renascendo na Lua crescente
No silêncio do amor consagrado
Metamorfose das revoluções
O raio quântico no centro de tudo
Um alto-falante mudo
O amor em carne, alma e osso.
Deitado no fundo do poço
Cavo até romper a aurora
Ascendo nos jardins do agora
Pela chuva germinado
De multidões estou emprenhado
Sigo na solitude de meus versos
Nascedouro dos universos
Morro um pouco a cada dia
Nessa espiral que chamo poesia.
À Luz de Velas ou as Quatro Velas de Zé*
Zé Luiz do Candeeiro
As velas de Dedé são sentimentos
Sentimentos também são pessoas
Quisera minha vida ser um soneto
Mas, métrica e rima ficariam à toa
Reconheço-me também na matemática
Em quadras defino minhas emoções
Na geometria torta de minha história
Minhas velas são pessoas e canções
A primeira delas é meu sol amarelo
Aquela que me deu à luz da vida
Como vela, velou meu crescimento
Minhas lágrimas de cera, as feridas
Sagrada família, vela número dois
Encaixe para minhas imperfeições
Chuva fina, que me faz transbordar
O sol resoluto dos meus verões
O desejo é a vela que queima
Que arde e se esvai como chama
Chama que completa o terno
Completando a trindade na cama
Por fim, a vela derradeira
Luz do sol refletido na lua
É a poesia de uma amizade
É a saudade na minha rua
Nas quatro, todas as outras
acendem este meu Candeeiro
Que embora tenha luz própria
Projeta nelas o seu luzeiro
À luz de velas, pessoas e canções
Luzindo como as velas de Dedé
São a paz, fé, o amor e esperança
Que acendem a chama deste Zé
*Poema que homenageia e se contata com o Soneto As Quatro Velas, do grande poeta Dedé Monteiro, disponível em https://www.moxotodagente.com.br/para-refletir-as-quatro-velas-dede-monteiro/