100 anos de solidão na Praça da Bandeira
o que nos prende?
TUDUM
Zé Luiz do Candeeiro
Alagoa do Monteiro, 23/02/2025.
Espero que não seja demasiado esforço para que o leitor ou leitora me acompanhe nessa aventura imaginária. “Cem anos de Solidão” foi primorosamente adaptado para televisão e está disponível no serviço de streaming da NETFLIX, confira. Para quem já leu ou está lendo o livro, encontrará na criatividade de Gabriel García Márquez um mundo de encantamento, afetos e desafetos, dores e dilemas, tais quais a nossa vida. O resultado dessa densidade de nuances e sentimentos, tal qual os charcos donde se ergue Macondo, é a construção de personagens profundos, que deixam marcas permanentes em quem se aventura a leitura deste clássico da literatura universal.
O fato é que me peguei pensando em José Arcádio Buendía, patriarca e fundador desse ideal chamado Macondo. Se há uma característica indelével naquele homem é a imaginação combinada a curiosidade. Absorto em suas aventuras pré-científicas, ele encarna a definição mais próxima de uma inventividade obsessiva. Sua obstinação só nunca foi maior que a de Dona Ursula, como muitos dirão o Coração de Macondo.
Todo esse ímpeto é potencializado pela amizade e carinho que tinha por Melquíades. O ar professoral daquela relação é outra marca daquele enlace de almas.
O velho cigano foi, antes de tudo, os olhos de José Arcádio Buendía. Responsável por mostrar as maravilhas do mundo para o companheiro, lhe contando um sem fim de venturas e desventuras.
Dito isto, peço que me acompanhem neste quase delírio. Imaginem que a diferença temporal já não seja crivo para a realidade. Pois bem, fiquei pensando o que diria Melquíades ao seu quase pupilo José Arcádio Buendía sobre a rainha da Borborema. Corredor dos mundos, portal que liga o oceano ao sertão. Cidade donde brotam ideais, berço universitário. Uma quase Alexandria no coração da Parayba.
Certamente, o sábio zíngaro falaria das maravilhas da eletrônica, da informática, mas também dos inventos e descobertas num tanto de outras áreas.
Foi assim que me senti naquela manhã nublada de segunda-feira. Mês de fevereiro e a cidade fervia com a proximidade do carnaval. Curiosamente, naquela terra o carnaval assume a condição de tempo de retiro espiritual, para aqueles que abraçam os eventos religiosos como ideal. Mas não se engane, Campina grande também tem folia. Blocos, troças, bois, maracatus, fazem da terra do Chatô, um berço de efervescência e resistência cultural. Campina Grande é onde um jacaré vive de braços abertos, tocando os pandeiros gingantes que se projetam sobre o açude velho, fazendo ressoar alegria de Jackson e tantos outros menestréis. Pandeiros que desafiam a matemática nas curvas de Niemeyer.
Subindo a João Pessoa em direção ao centro da cidade, procurava um lugar onde pudesse passar o tempo. Meu próximo compromisso era só às 14 horas. Me sentei numa das dezenas de casas de salgados. Tomei um caldo de cana com pastel. O doce da cana me deixou mole, seria o potássio dilatando as veias e diminuindo a pressão da semana que se iniciava. Dividi o pastel com duas pombas, algumas migalhas. Nem a atendente, nem a dona de sotaque asiático se importavam com a presença dos pássaros. Antes de ir, fui ao banheiro e reparei na porta da cozinha um altar, provavelmente para alguma divindade do oriente. Ahh, era isso que Melquíades também diria. Campina Grande é uma profusão de gentes, de culturas, lá parece haver um lugar para todos. Continuo minha saga, meu alvo a antiga praça dos índios cariris. Refugiados como tantos outros povos, que ali passaram e ficaram. Hoje, aquela praça é território de outros seres, os pombos. Que em revoadas estrondosas resistem pintando de branco os cabelos de JK. Boqueirão ainda resiste também. Como há mais de 50 anos atrás, um Presidente veio até campina grande, agora navegando às águas da Transposição do Velho Chico.
Enfim, a praça. Seu parlatório, suas sombras, seus pombos, seus mendigos, seus intelectuais, seus missionários, seus cafés. A moça do alfajor. Os bêbados tomando um corote de Caranguejo. O homem discursando para os demais sobre a safadeza no corpo do homem trans que atravessou a praça de saia curta. Resistindo. Sobrevivendo. “Todo homem quer que seu filho seja homem”. O preconceito e a ignorância também resistem. Mais a frente, a “liga da justiça” dos heróis miseráveis que perderam a batalha para o álcool, se preparava para enfrentar mais um dia. O gole dividido, os entreveiros, o afeto, a fatalidade, a tragédia social, estava tudo ali. Um ecossistema formado, completo, mutável.
Abro o livro. Revisitando Macondo, agora com a belíssima fotografia da série televisa na mente. Me deixo tocar pela leitura. Fiquei imaginando os ciganos e sua caravana chegando na Praça da Bandeira. Trazendo maravilhas e encantamentos na bagagem, levando o conhecimento produzido para outras terras. Vejo José Arcadio Buendía espantando os pombos com os imãs gigantes, tentando encontrar ouro. Como aquela menina que insistia em espantar os pombos, com determinação ela repetia o gesto. Teria herdado este instinto obsessivo do velho Buendía? Não sei. Diferente dos pássaros de Macondo, os pombos estavam livres. Mas não vão para outro lugar. Voltam, para serem espantados pela menina. Absorto, agora era eu e o livro. Até que o encantamento foi quebrado. Um senhor, interrompeu minha leitura. Você gosta de ler? Já leu a Biblia? Apocalipse 21, leia tudo está se cumprindo. Os falsos profetas. “QR Code é um sinal disto”. “Não há mais dinheiro”. “Tá tudo lá”. Escutei pacientemente.
Meu celular tocou, reparei que estava conectado no wi-fi da Eduroam. Pensei, de onde vem esse sinal? Lembrei que ali no coração de Campina Grande, tem um prédio da Universidade Estadual da Paraíba. Deve ser de lá. O homem finalizou sua pregação dizendo “leia” está tudo aí pode pesquisar no seu celular.
É, meu caro Melquíades, a internet e o celular são maravilhas do nosso tempo, são sinais do Apocalipse, mas também posso ler a Bíblia por ele. Destruição e Salvação tudo num só aparelho. Essa é uma novidade que você poderia apresentar para seu velho amigo Buendía.
Que será que ele diria dessa pequena tela em que parece caber o mundo inteiro? É capaz, bem capaz, de recebê-la com a desconfiança primária de um espírito inquieto. Mas, certamente, assombrá-lo-ia uma máquina que contém a alma dos mortos e dos mundos. Um daguerreótipo universal, capturando tudo o que vê.
Pediria a Melquíades ferramentas, talvez compradas no Edson Diniz, apropriadas para dissecar e revelar a alquimia daquela máquina.
No fim, entre as desgraças e maravilhas do invento, compreenderia que a máquina que conecta é também uma máquina de solidão, dessas que não cabem nem em cem anos.
Meio dia. A Praça da Bandeira me diz quase tudo que preciso saber sobre Campina Grande, naquele dia. Que outras Praças, Melquíades visitou? Fecho o livro, o cheiro da comida das Boninas. Mais tarde, me despeço da terra dos tropeiros e sigo como um cigano de volta para Macondo, esse lugar que aprendi a chamar de casa.