Cavalcante & Candeeiro:
um autoretrato
Autorretrato: dizeres de mim mesmo
Zé Luiz do Candeeiro, por ele mesmo.
Falar de si talvez seja a tarefa mais difícil do poeta. A autoanálise é sempre um desafio. Por isso, a quem me pergunta quem sou, a resposta é sempre a mesma: não sou, estou sendo. Nesses casos, o exercício do ser é traduzido na décima que diz:
Por vocação sou professor
Filho de Tupanatinga
Meu templo é a caatinga
A vida, meu grande amor
Vejo universos em uma flor
Sou cidadão do mundo inteiro
Meu porto seguro: Monteiro
Meu coração altifalante
Nasci e me criei Cavalcante
Mas a poesia me quis Candeeiro
Portanto, peço licença, a título de registro, para falar um pouco dessa metamorfose que poderá conter elementos, ainda que superficiais, para uma biografia:
Zé Luiz do Candeeiro é filho de Tupanatinga. Esta é a alcunha e identidade poética de José Luiz Cavalcante, que nasceu por volta das 7h30 da manhã do dia 19 de maio de 1981, na maternidade de Buíque-PE. A terra, que é um dos principais portais de entrada do Vale do Catimbau, serviu de berço provisório, já que, após o nascimento, aquele bebê foi levado para sua terra natal de fato e de direito, na localização mais importante de todas para minha constituição: a ladeira da Rua Emídio Pereira, 13.
Ladeira que dava para o beco de Dona Eudócia, avó de Paulo Neto, Lúcia Helena e João. Meus primeiros irmãos fora da família. Ladeira que escondia os mistérios da Serra do Laranjo, lá onde o sol nascia, onde moravam os “fogo corredor”. Ladeira que foi meu campo de futebol, onde brinquei de amarelinha, de pega-pega, de garrafão, do famigerado cuscuz. Vizinho de Dona Clara e de Dona Antônia, avó de Gildania e Jandilson Martins. Jandilson, que era o jovem mais sortudo do mundo, pois tinha videogame e bicicleta. Mas, sobretudo, ladeira de onde se via outra ladeira: a “ladeira da igrejinha de São Benedito”, a Igreja dos Pretos, o caminho da escola.
Todos esses elementos, penso serem suficientes para cravar uma infância regada de imaginação, de cuidado, de brincadeira, de amizades, de educação. A escola sempre foi o caminho para o jovem de origem humilde, incentivado por seus pais.
Para que se tornasse Doutor em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, foi preciso aprender a ler com Tia Jocelina e Tia Marré. Foi preciso ir estudar na Escola Estadual José Emílio de Melo com Tia Clara. Depois, o Normal Médio entre Tupanatinga e Itaíba e, sobretudo, fazer a Licenciatura em Matemática na Autarquia de Ensino Superior de Arcoverde, incentivado e financiado por seus pais.
Para que se tornasse poeta, precisou das primeiras letras e viver as primeiras paixões na escola, como a primeira cartinha de “amor” que escreveu, com cerca de 9 ou 10 anos de idade, para Katia Maria. Educação, letras, herança dos pais que eram semianalfabetos.
Aqui entra a parte fundamental de sua vida: filho de Seu José Cavalcanti de Albuquerque (Zé de Manoel Bicudo) e Dona Maria Izita dos Santos. Foram e são pilares para sua formação. Irmão de Cristiane Cavalcanti, Maria José e Emanuel, estes dois últimos falecidos precocemente na dureza dos anos 1980.
Mas foi sua origem humilde que lhe proporcionou contato íntimo com as coisas da caatinga e com as manifestações culturais de seu povo. Só mais tarde o quebra-cabeça fez sentido, ao se descobrir descendente dos “negros do carrasco”, carregando o sangue quilombola e a genética da Mestra Mariquinha do Samba de Coco, reconhecida como Patrimônio Vivo da Cultura de Pernambuco. Ele sempre soube que herdou do pai o gosto musical eclético, que depois teria forte influência do samba de coco, dos ritmos africanos e das paisagens sertanejas. Sua vida foi marcada pelos hits que seu pai ouvia — desde a Jovem Guarda até a discoteca, o axé e o reggae.
Trabalhou desde cedo na Mercearia Brasília, junto com Paulo. Venderam e carregaram de tudo: arame, cimento, farelo, fubá, bebidas, remédios veterinários, cachaça! Foi nesse ambiente que se encantou pela vaquejada e pela vida no campo, pois sempre admirou as histórias de Seu Tião, vacinando gado, plantando milho, dançando forró nas vaquejadas.
Mais tarde, aos 16 anos, foi morar sozinho, comprou um computador e foi ser professor de informática na cidade de Itaíba-PE. Lá descobriu seu talento na oratória, impulsionado principalmente pela Ordem DeMolay, onde foi Mestre Conselheiro por duas vezes.
Após a faculdade, ingressou de vez no magistério, tomando posse em 19 de maio de 2003 como professor efetivo na rede municipal de Tupanatinga-PE. Nessa mesma época realizou um sonho antigo: enfim aprendeu a tocar violão e começou a fazer suas primeiras composições.
Esse período coincide também com uma importante mudança de vida: fixou morada no Cariri paraibano, quando se casou com Ivanize Maria e teve duas filhas, Ana Luiza e Ana Laura. Em 2006 foi aprovado no concurso público para professor do Estado de Pernambuco e também no concurso público para professor do Estado da Paraíba. Lecionou em Sertânia e na Prata, mais tarde no Estadual José Leite de Souza.
Sertânia, princesa da poesia, é um capítulo à parte de sua história. Foi lá que se descobriu e se afirmou poeta. Frequentando saraus, promovendo eventos e, sobretudo, frequentando o reduto poético da Rua das Tabocas, o famoso Bar de Zé Mago. Lá se tornou membro fundador da Sociedade Poetas, Compositores e Artistas de Sertânia – SAPECAS.
Em 2008, ingressou no Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Estadual da Paraíba. Em 2011, foi aprovado em 1º lugar no concurso do IFPB Campina Grande. Em 2012, foi aprovado também em 1º lugar no concurso da UEPB em Monteiro. O coração bateu mais forte e ele trocou o emprego federal para vir ser formador de professores no Cariri paraibano.
Esse mesmo período é marcado por sua estreia como cantor e intérprete, fazendo barzinho, cantando nas noites de Monteiro, Sertânia e Tupanatinga.
Criou e integrou o grupo Candeeiro Encantado, banda que movimentava a cena cultural local e que lhe rendeu a alcunha “do Candeeiro”.
Foi coordenador do Núcleo de Arte e Cultura do CCHE-UEPB, onde desenvolveu diversas ações voltadas à difusão da cultura popular, compreendida como forma de libertação e resistência. Também integrou o projeto literomusical 3 de Nós, iniciativa sua em parceria com a professora Tatianne Oliveira e o músico Claudinho de Monteiro. Com este grupo se apresentaram em diversos espaços, incluindo a TV Itararé, em Campina Grande-PB.
Poeta, cantor e compositor, participou de diversas coletâneas poéticas, entre as quais Ecos do Nordeste, lançada no Brasil e em Portugal. Em 2021, publicou seu primeiro livro de poesias, Poemas em Rede: Antologia de minhas décimas imperfeitas, que reúne mais de 200 poemas sobre temas variados, sobretudo o amor.
Na área acadêmica, lançou em 2013 seu primeiro livro, Resolução de Problemas na Formação de Professores de Matemática. Atualmente, dedica-se à pesquisa no âmbito da Reunião de Estudos em Didática da Matemática.
Em 2015 entrou para o Doutorado em Recife. Lá assumiu a condição plena de Zé Luiz do Candeeiro, já que sua orientadora lhe permitiu trazer a poesia para dentro da academia, com a publicação do livreto Poemas de Tese.
Após a conclusão do doutorado, foi convidado e eleito coordenador do Grupo de Trabalho Nacional do GT14 – Didática da Matemática, da Sociedade Brasileira de Educação Matemática. Essa coordenação deu oportunidade de conhecer pessoas de todo o país, onde também teve oportunidade de mostrar sua arte, com apresentações em Porto Alegre, Paraná, São Paulo, França e Japão.
Já participou de diversos podcasts e documentários. Sua obra inclui canções que foram trilha sonora de filmes e documentários.
Recentemente produziu e dirigiu o documentário Samba de Coco: Raízes de Tupanatinga, com financiamento da Lei Paulo Gustavo, através da Secretaria de Cultura do Município de Tupanatinga. O Documentário foi lançado em praça pública, em escolas e integrou a Programação Oficial da 2ª Mostra de Cinema e Patrimônio de Pernambuco, exibido em uma das salas de Cinema mais importante e tradicionais do Nordete Brasileiro, o Cinema São Luiz - RECIFE.
Na música e na poesia, ele toca seu projeto solo. Lançou recentemente o poema épico Humana Comédia do Cariri, que está disponível no YouTube, Spotify e outras plataformas digitais. Em dezembro de 2026 pretende lançar o álbum Zé Luiz do Candeeiro – Tantos, Todos e Nenhum.
Em abril de 2026, lançou seu segundo livro de poesia, Pisa Menino, e será homenageado na Festa Literária Integrada de Monteiro – FLIMON 2026.
Uma alma em movimento, adicionou uma nova camada artística a sua existência com a universo da palhaçaria, portanto o Poeta e Professor também é palhaço como diz na sua experiência:
”Meu Pai é um Palhaço”
Essa foi a frase que minha filha Ana Luiz proferiu no Dia dos Pais. Claro que há uma intenção por trás dela: uma brincadeira particular entre mim e minha primogênita.
Eu corrigiria a frase para: “Meu pai é um projeto de palhaço.”
Dentre as tantas linguagens artísticas que definem ou que me aventurei — poesia, música, teatro, cinema etc. — a palhaçaria chegou em um momento singular da minha vida. Quase na meia-idade, quando me sinto mais seguro, porque aprendi a ter serenidade para andar mais devagar, descansar e contemplar a vida.
Chegou no momento em que minha ancestralidade ressignificou meu candeeiro , quando o amor passou a fazer sentido em todas as suas formas para mim.
Acordei e pensei: por que não? E assim foi. Procurei um curso de palhaçaria, participei da oficina promovida pelo Grupo Experieus e decidi, por pura invenção e doidice, fazer meu primeiro estágio.
Aproveitei o público conhecido. Sabia que eles me acolheriam — e assim o fizeram. Foram gentis e entraram na brincadeira.
O diretor da UEPB de Monteiro também é um palhaço.
Enfim, quero agradecer a todos(as) os(as) estudantes, especialmente a Hilton, que me deu a oportunidade de fazer palhaçaria naquela noite, 11 de agosto de 2026, Dia do Estudante no CCHE.
Obrigado à minha família e aos amigos e amigas que apoiam minhas invenções. Nas palavras de Ivanize: “Você agora foi longe demais!”
Que assim seja! Que eu possa ir cada vez mais longe, sem me perder da minha essência, das minhas raízes e daquilo que me constitui.
E que, além de provocar o riso, eu possa provocar encontros, afetos, reflexões e, quem sabe, isto é poesia.
Candeeiro é poesia, música, docência e palhaçaria."
“Uma mente fértil e um coração gigante, o Poeta do Candeeiro é autor de diversas músicas e obras, acreditando que ser Candeeiro é inspirar e ser luz na vida das pessoas.”
Assim, termino essa pequena superfície, amostra de minha história.