Diário de um Naufrago:
a saga
Corsário
Zé Luiz do Candeeiro
O velho Corsário
De meia idade
Carrega no rosto
O peso da saudade
Cicatrizes das esperas
Fissuras das solidões
Na nau interestelar
Ferrugem das paixões
Náufrago de si mesmo
Em planetas distantes
Sonha noutras luas
Um retorno triunfante
Na imensidão do tempo
Cheirando a rum e ilusão
Sente o peito esmagado
Pela certeza da indecisão
Brilho incendiário
Zé Luiz do Candeeiro
No canto do olho
um brilho incendiário
Lascas de luz
no último suspiro
da velha estrela
É o episódio final
de uma série
de desventuras
A criatura saberá
pelo tamanho da dor
se o seu criador
lhe fez gigante
o suficiente
Para fundir o ferro
em novos ingredientes:
Supernova ou buraco de negro
Não importa,
sua chama
nunca foi hidrogênio
sempre foi amor
Apogeu
Zé Luiz do Candeeiro
Maio ensaia
os últimos acordes
em um baião sentido
Deixa que junho
acenda a fogueira
Enquanto seu candeeiro
entrega a última chama
Quase desmaia
na lentidão
dos compassos
Pressentindo
a longa pausa
grita com olhos mudos
Da janela,
a segunda lua cheia do mês
vestiu-se de azul
Mas ainda é cheia
e tudo amplifica,
inclusive, a distância
Era lua azul no apogeu
A carta onírica
estava revelada
Mas não há Egito
e o mar não se abrirá
pela segunda vez.
Ampulheta
Zé Luiz do Candeeiro
Em transe
lentamente
assistia
sua vida
escorrer:
Memórias,
Afetos,
Dores,
Saudades,
Metáforas...
De grão em grão,
uma eternidade
após a outra,
passaram
num segundo
Foi aí que virou
o seu mundo
Mal declarou
O desejo de
apaixonar-se
Viu no vidro
da ampulheta
o brilho refletido
do olhar de quem
sabia que
já era paixão
Voltou-se para si,
murmurou
sorridente:
Lá vou de novo!