Retorno:
uma jornada sobre serenidade e sobriedade
Retorno: uma jornada sobre serenidade e sobriedade
Zé Luiz do Candeeiro
[...Fecho o livro do Dr. Maté e ainda ecoa a citação do Evangelho de Tomé: “Quando vos conhecerdes, então sereis conhecidos, e sabereis que sois filhos do Pai vivo. Mas se não vos conhecerdes, então estareis na pobreza, e sereis a pobreza.”]
Esperei exatamente as 12 badaladas do relógio da matriz. Mesmo que o som caótico da Cidade Forró, no Parque Dejinha de Monteiro, não me deixasse ouvi-las. Sei que poderia senti-las. Sobre a percepção do caos, explico-me. Diferente de outros anos, eu não estava lá fisicamente; de longe, tudo parece bagunçado. Eu não estava lá para sentir a energia e a fidelidade dos sistemas modernos de sonorização, ápice da superestrutura montada para alguns dias de festa.
Recordando-me agora de algumas passagens naquele local, duvido que, em algumas noites, estivesse apto a perceber as nuances na qualidade do som. Embora meu ouvido de músico sempre tenha sido treinado para isso, houveram trechos que faltam e que, provavelmente, nunca poderei recuperar. É incrível a supervalorização da falta em nós.
Quisera que esses trechos remetessem somente àqueles momentos de festa. Mas não posso preencher a falta com mais falta. Algo em mim grita, quando não estou prestando atenção, sobre a necessária compreensão de que tudo que preciso sempre esteve aqui.
De fato, o texto reflete a espera da meia-noite, porém, diferente de outras esperas em minha vida, esta se traduz mais como cautela serena do que como a vã esperança, algumas vezes romântica. Como disse certa vez o amigo Paulo, da Casa Progresso: “– você é o poeta das esperas”. Sim, esse qualitativo define e explica muito da minha poesia, tanto que nomeio a segunda parte do livro Poemas em Rede como ensaio sobre o amor e a espera.
Porém, hoje, não desejo mais este lugar. Só quero a espera que venha do esperançar freireano. Essa me interessa, porque me permite habitar o lugar da travessia.
Dito isto, esperei a chegada do dia 25 de junho de 2026, desde quando nem imaginava essa data como marco de qualquer coisa na minha vida.
Esperei com receio de não parecer precipitado. Para mim, alguns textos são gestados à conta-gotas, por vezes diluídos noutras misturas; começam antes da primeira palavra.
Esperei também com a humildade de quem aprendeu a viver um dia por vez. Para que estas palavras brotassem, foi preciso ontem. Pra que o dia hoje chegasse e fosse celebrado precisei das 24 horas anteriores em cada um dos 365 dias. Hoje é sobre cada uma dessas horas.
Ontem, terminei a leitura de Vício: o reino dos fantasmas famintos, do Dr. Gabor Maté. Sentado à sombra de uma árvore, em frente à minha casa, fiz a leitura solitária do último capítulo e, depois, do seu epílogo. Ontem, respondi à companheira que atravessou minha estada nesse reino pelos últimos 23 anos, que me perguntou gentilmente por que eu estava ali tão “abandonado”, dizendo que estava cumprindo minha jornada, que estava em paz.
Quando eu e o querido Rochelande Rodrigues escrevemos o artigo Fahrenheit 451 sobre nossa experiência com análise praxeológica de livros didáticos, dissemos em comunhão que o livro didático, ou qualquer livro em homenagem direta a Ray Bradbury, enquanto artefatos culturais, se comportavam também como instituições. Agentes de nossa cognição, capazes de influenciar nossa percepção sobre o mundo e sobre nós mesmos.
Minha sujeição institucional ao pensamento de Gabor Maté foi quase por acaso. O algoritmo da Meta me sugeriu; portanto, nele nada é por acaso. Certamente deixei escapar, em alguma busca, meu interesse na temática. O que importa é que a compra foi feita exatamente no dia 25 de junho de 2025.
Provavelmente à tarde. Tendo em vista que, na noite do dia 24 — o ontem para aquele dia —, eu passei a noite na Cidade Forró, acompanhando o show de Vitor e Léo, Seu Desejo e os Filhos de Dejinha, esta última, talvez, a atração mais importante para mim. O “talvez” não é falta de convicção; pelo contrário, é humildade de ser sincero, pois eu não posso negar que foi bom Vitor e Léo, mesmo numa apresentação apática. Melhor ainda foi ver o público jovem estremecer aquele pátio ao som de “muda pra minha vida e vem se apertar comigo na cama de solteiro”. Verso que eu cantei também, que cantamos, eu me lembro.
Após a noite de show, já com um grupo de amigos, fomos para a calçada onde eu leria o capítulo final do livro um ano mais tarde.
Foi naquela manhã junina de 25 de junho, ao som de um reggae remix, original do Maranhão, que tomei minha última cuba libre, pois eu decidi que não ia mudar para a vida de ninguém e nem me apertar numa cama de solteiro. A decisão foi de mudar a vida, sonhar um novo final, porque, assim como o fim é certo, o direito ao sonho nos é dado como igual certeza, nas palavras de Krenak.
Comecei uma das jornadas mais difíceis e silenciosas da minha vida: explicar para a sociedade que um homem de 44 anos, saudável, bom filho, pai de família e esposo exemplar, com uma formação religiosa relativamente sólida, Diretor da Universidade Estadual da Paraíba, aprovado seis vezes em concursos públicos, sendo as quatro últimas em primeiro lugar, Doutor em Ensino de Ciências e Matemática, poeta e cantor, com o círculo de amizades que o conhece e o respeita, teria que simplesmente “anunciar sua aposentadoria precoce em relação ao álcool”. Foi exatamente a frase que usei como sinônimo para “parei de beber”.
Embora um artifício, a metáfora me caiu muito bem. Façam as contas comigo. Meu primeiro gole de álcool foi na tenra infância; lembrei-me de ser alçado pelos meus tios e meu pai num açude, e lá me deram um gole de cachaça. A terapia, hoje, me ajuda a compreender melhor esse evento, sem culpa, sem ressentimentos.
Mais tarde, próximo aos 11 ou 12 anos de idade, vomitei até a alma por ter tomado conhaque com minhas tias. Na mesma época, conheci a vodka, o Bacardi, a cerveja e o rum. Este último, meu companheiro desde a adolescência: “este é o negão do rum”, dizia o saudoso Wilson de Sinhô. Sempre encarei aquilo como elogio, afinal eu parecia bom no que fazia.
Foram muitos porres, ressacas, para só depois eu me especializar naquilo de verdade, principalmente em relação à tolerância, que alcançou um novo nível durante a pandemia da Covid-19. Nessa mesma época, teorizei e provei sobre a existência da famosa “curva da morte”, no meu experimento particular chamado de “Bar Solidão”. Isso mesmo, nos últimos 4 ou 5 anos minha relação era harmoniosa em alguns aspectos... “aprender a beber”, “hidratar” etc. As ressacas e os vexames foram virando coisa do passado.
Pois bem, aos 44 anos, eu tinha mais de trinta anos de serviços prestados, religiosamente, quase toda quinta-feira no Bar Solidão, nos finais de semana. Às vezes, a semana inteira em dias alternados. Neste ponto, para além das boas memórias, das risadas, das histórias homéricas, permitam-me falar de um outro lado.
Pois não seria honesto se deixasse apenas a eloquência de minha escrita convencer o leitor de que falo do álcool com romantismo ou nostalgia. Nem um, nem outro. Para o gosto agradável do rum com bastante Coca-Cola e gelo, presente nas memórias sensoriais, há também a ferrugem dos comas alcoólicos, das vergonhas públicas, das grosserias com a minha família, do vilipêndio da minha saúde, dos surtos que quase me tiraram a própria vida. Muitos deles vividos de forma silenciosa ou mesmo conivente com a sociedade, porque, na segunda-feira, ou mesmo algumas horas depois, eu estava pronto para ajudar, trabalhar, servir e ser um homem de sucesso que a sociedade pagava com amor.
Não, este texto não é um pedido de perdão aos que feri. Já fiz isso para cada vez que pratiquei um ato do qual não me orgulho. Abdiquei da culpa compulsória já faz um tempo. Carreguei cruzes de madeira demais, por dores que não deveriam ser minhas.
Portanto, o texto também não é um pedido de desculpas a si próprio. Não necessito mais disso, pois a compaixão para com o outro, que sempre foi uma marca de personalidade, agora também é direcionada a mim mesmo. E o que isto tem a ver com o álcool?
Tudo e nada, se assim preferir. Porque ele foi a fuga, foi anestésico, a saída, a ponte para o abismo. Mas, em troca, eu lhe ofereci o que havia de mais sagrado para mim hoje: minha lucidez. A sobriedade que celebro hoje é sobre essa lucidez.
Foram 12 meses, 365 dias. Tive o cuidado de visitar cada uma das pessoas que julguei importantes para que pudessem reconhecer minha decisão, não como prestação de contas, mas como um anúncio silencioso de minha escolha. Hoje, além do orgulho, a única palavra que me vem à mente é “retorno”.
O retorno que conclamo no título deste texto é a verdadeira jornada em questão, a celebração, a paz de estar em paz comigo mesmo. De olhar para todos os papéis que desempenhei: os que a sociedade louva e conhece e aqueles que só eu reconheço. Todos estão lá. São parte de mim.
Esse retorno é a capacidade de sentir orgulho de ter aceitado como meu esse desafio. Eu passei muito tempo tentando vencer na vida, sem me dar conta de que a vitória primordial é reencontrar-se consigo.
Eu agora sei que sou parte do cosmo. Eu entendo Krenak e sei exatamente o que Han queria dizer sobre o cansaço como ideal de nossa sociedade. Não busquei a terapia porque tenho a mente fraca; fiz isso porque tive coragem para pedir ajuda. Muitos de nós passam pelas mesmas coisas todos os dias; porém, muito mais ainda têm adoecido e morrido.
Mas não foi a terapia que me levou a este retorno a si; fui eu que me dispus a dedicar o afeto necessário para estar aqui, com toda a dor que o processo trouxe. Porque a dor, assim como o amor, é inerente à vida.
Aqui, despeço-me agradecendo a cada familiar, amigo ou pessoa que reconhece e respeita minha trajetória pública e privada. Porque eu não preciso convencer a sociedade de que o álcool é uma droga, assim como todas as outras substâncias químicas; de que o cigarro mata; de que as casas de apostas digitais são letais; as redes sociais e a nossa dependência do digital são nocivas, de que os comportamentos compulsivos precisam ser tratados e até mesmo o ato de trabalhar demais, são um perigo.
Os Alcoólicos Anônimos e tantas outras instituições e pessoas que salvam vidas diariamente já fazem esse alerta. Nenhuma guerra contra as drogas supera o amor, a compaixão e a acolhida. Não há solução preventiva mais eficaz do que cuidar das nossas crianças.
Não preciso convencer ninguém da necessidade da minha aposentadoria voluntária. Nem tenho a pressão de carregar isso como algo definitivo em minha vida, pois o definitivo não cabe nem na morte.
Mas precisava dizer como eu me sinto hoje, porque amanhã é outro dia e estou tão ansioso por vivê-lo, como quem sente o petricor entrando pelas narinas, reconhece a chegada da chuva e, às vezes, percebe que ela nem vem. Isto, para mim, reflete a serenidade: esse retorno, essa travessia que é viver.
[... Ao terminar este texto, inundado de gratidão e paz, volto a Agostinho: “Não saias de ti, volta para ti mesmo; no homem interior habita a verdade.” Sigo na direção do retorno...].