Sobre Manuais & Monólogos:
afetos e (re)existências
Monólogo*
Zé Luiz do Candeeiro
Bom dia,
Saudação
Frase nominal
Substantivo
Se o bom-dia
For precedido
De artigo ou de
emprego pronominal
Salvē! Bonum mane!
No latim a raiz original
Buenos días, em espanhol
A única que usa plural
Zao an em mandarim
traz a paz da manhã
do lado oriental
Bonjour, Buongiorno
Good Morning, Guten Morgen!
Dzień dobry!
São o mesmo
cumprimento afinal
Sabah al-khair
É manhã de bondade
Bom dia pra dizer: Saudade.
Bom dia pra dizer: pensei em você.
Bom dia pra dizer: obrigado
As vezes é um
“eu te amo” disfarçado
Quando tem o sentido
Desvirtuado**, antes fosse
dinheiro emprestado
As vezes é só um
bom-dia sem interpretação
Ohayō gozaimasu
Vem de “É Cedo” no Japão
Por que dizer: Bom dia,
pode um Bom-dia por Educação,
Mas também transformar o dia
E se transformar em poesia
Para quem recebe e diz de coração.
*Inspirado num bom dia que chegou como os Girassóis de Van Gogh
**Colaboração de Anna Paula Avelar Brito Lima
Partida
Zé Luiz do Candeeiro
Na hora de partir
bagagem leve
Só leve o essencial
O peso em excesso
Pesa, cansa, afinal
No final,
você tem tudo que precisa
Alguns sonhos porvir
Que talvez nunca virão
Virão decerto saudades,
Memórias, mas cuidado!
Todo cuidado é pouco
A locução conjuntiva condicional
É tão perigosa quanto a culpa.
Se tiveres dúvidas,
Volte ao início,
Na hora de partir
Vá, e só leve o que for leve!
Manual da paz em dias de luta
Zé Luiz do Candeeiro
O que me resta
não é o que falta,
nem o que sobra.
É o que transcende.
No final do dia,
o que transborda
para dentro de mim.
No mirante solitário
de meus pensamentos.
Onde adormeço
à sombra do desejo.
Onde reconheço
antigos medos.
Onde qualquer endereço
leva sempre até mim.
Onde desconheço
imagem mais bela
que o apreço
da serenidade
de poder sonhar com
novos recomeços.
É o que resta.
Manual do Esquecimento
Zé Luiz do Candeeiro
Vai chegar a hora
que não vou
lembrar mais.
Até lá,
eu ainda lembro.
Isso é o que importa.
E, por mais que tente…
Olha, eu tento
fechar essa porta!
Tem sempre um
acontecimento
que me impede
de concluir
essa tarefa.
É um avião
que passa
e eu digo:
Olha, você viu
aquele avião?
O dólar.
O café.
A guerra.
Como a gente
nunca aprende
com as guerras?
Uma foto.
Um pensamento.
Uma respiração.
Eu só sei que a porta
está lá.
Não, agora lembrei:
tirei a dobradiça.
É que dava
preguiça
tentar fechar,
quando sei que
eu ia voltar.
Então mandei
arrancar.
É que aquele
rangido incomoda.
Prefiro o ruído
desse seu silêncio
de mais de 24 h.
Mas não me leve a mal
por essas bobagens.
Coitado do meu coração,
envergonhado todo santo dia.
Parei até com a poesia.
Tudo vira declaração.
A verdade?
Eu vou lembrar
e não vou fechar a porta.
Embora não cruze o batente,
eu vou sentir saudade.
Toda noite,
vou fazer uma oração.
Vou abraçar o travesseiro
e, no dia seguinte,
com ou sem mensagem,
lembrarei.
Porque, além de ser falta,
eu sou memória.
E, mesmo sendo
seu maior erro,
a história ainda tá lá.
Não como passado
datado, talvez,
como livro
por escrever.
Mas pera,
quase esqueci:
estava falando
sobre esquecer.
É um sintoma.
E, quando eu esquecer,
pronto,
tudo resolvido.
No final,
tudo terá sido
uma elaboração.