Bacurau:
é bicho da noite, menino
Hamelete:
em se avexe não, avexado
Neném de Alagoas*
Herotíldes e Herotoldes
Era um casal engraçado
Além do H de “home”
Diziam que só o nome
Tinha lhes aproximado
Vivendo juntos
Pensando em separado
Dividindo a cama
Tramóias e tramas
Pra manter o principado
Ela posando de fina
Ele polido e rogado
Jurando de pé junto
Que a missa do defunto
Não tinha encomendado
Acontece que a mentira
É um angu queimado
Quer saber a verdade
Dê um tico de autoridade
A quem xinga o delegado
Mas logo vem a paga
Pra quem foi injustiçado
Sossegue o facho
Pois não há despacho
Que salve o condenado
*Neném de Alagoas é um poema maldito como diria Abraão Romão. Ele não tem papas nem responde aos papas da língua. Ele não é Zé Luiz do Candeeiro, é o avesso dele mesmo no outro que se faz no universo inteiro, desses que nem Cavalcante nem Candeeiro falam, mesmo estando lá.
Um microconto sobre Neném...
A Espera na Rodoviária
Zé Luiz do Candeeiro
Sinto, logo existo. Descartes se remexeria com tal aforismo? Nunca se sabe. Por falar em incertezas, eis o ofício de poeta em vida e existência:
Certo vez, na rodoviária de Maceió, lá estava o poeta Neném de Alagoas esperando o ônibus da Viação Real de Alagoas que ia para Arapiraca. Por descuido ou não, ouviu uma moça dizendo ao rapaz...
— Vai dar tudo certo, porque errado já deu...
O brilho dos olhos da moça refletia uma esperança nos olhos do rapaz. Neném de Alagoas não deixou nem o instante esfriar e fez a sua antologia das certezas:
Antologia das (In)certezas
Neném de Alagoas
Se por um minuto
tivesse certeza
que tu me quer
abandonava todas
minhas certezas
por você, mulher
mas como a vida
é sempre incerta
quem sabe um dia
a gente se acerta
essa incerteza
vira certeza
quando tu quiser
Chegou o ônibus dos três e só ficou a espera de quem ficou na rodoviária.
Histórias de ouvir dizer... que são verdade.
Neném de Alagoas não se mete em política partidária. Sempre admirou Paulo Freire e, por isso mesmo, não é chegado à injustiça nem à covardia. Ele sabe que a educação cumpre um papel fundamental na sociedade e que a dignidade humana é um valor inegociável.
No dia 19 de março de 2017, Neném estava em Monteiro e teve a oportunidade de apertar a mão de Lula. Ele se sentiu acolhido, pois o poeta viu no presidente um igual: um homem que brotou das terras do sertão, que lutou pelo bem-estar coletivo e que, ainda hoje, é chamado de analfabeto, mas que, assim como Neném, é um poeta letrado pela vida.
Recentemente, o poeta, ao ver um douto senhor conservador gastar seu vocabulário rebuscado para desqualificar uma jovem que defendia sua posição política, escreveu:
Bolso-Verborrágico
Neném de Alagoas
Ontem, um aspirante a doutor,
sob a égide do culto vernáculo,
estrelou indigesto espetáculo,
minorando do outro o valor.
Responder-te-ei com o primor
deste roto poeta da saudade.
Não sou o dono da verdade,
nem sou mais do que ninguém.
Fezes por bosta, nem vai nem vem,
me agrada mais a humildade.
Cada um tem o direito de ser de direita, esquerda, de centro ou do que quiser. Quem chama o outro de burro, burro parece que também é.