SERENIDADE COMO PRAXIS DO SILÊNCIO:
a descriação da palavra para criar poesia.
SERENIDADE COMO PRAXIS DO SILÊNCIO: a descriação da palavra para criar poesia.
Todo ser clama em silêncio para ser lido de outro modo (Simone Weil, Cadernos de Anotações, 01 – 1991).
Não faz muito tempo, eu sei. Mas, quando escrevi sobre a Pedagogia da Serenidade como percepção de si, estava embevecido pela fantasia da lucidez. Foi a mesma lucidez que permitiu enxergar mecanismos comportamentais, carências, faltas, vieses, vestígios do desejo que me conduziram para o caminho reflexivo da Pedagogia da Serenidade. Mas, sobretudo, me fez reconhecer a ignorância do ser, do que virá depois. Portanto, foi esta mesma ignorância, ou desconhecimento, que me conduziu até aqui.
Para explicar o ser total, precisei anunciar, ainda que superficialmente, minha compreensão sobre a dimensão afetiva e espiritual, a partir das minhas próprias experiências. Ali, deixei algumas provocações, porque a palavra como aparato tecnológico me permite tal artifício, sobre o pensamento de Simone Weil, lido sob a ótica de Byung-Chul Han em Falando Sobre Deus (2025).
Refiro-me a atenção como oração e a própria “descriação” como parte da estética da Pedagogia da Serenidade. Elas apontavam numa direção que ainda não conhecia, apenas pressentia. Foi pressentindo que precisei silenciar-me. Para poder prestar atenção, para poder esvaziar-me de mim, para, então, só assim, poder contemplar a beleza, a dor e a inatividade como parte da criação.
A leitura respeitosa de Han sobre Simone Weil me causou um incômodo brutal. A promessa de dar voz a ela foi cumprida integralmente. E o resultado de minha experiência de leitor? Não há conforto nas palavras de Simone. Quem é, quem era aquela mulher que dizia, de forma serena, coisas tão duras, mas delicadamente assertivas? Era a mulher da experiência. Um ser total que viveu sua fé em um nível de entrega que a sociedade do cansaço, do medo, não nos permite sequer imaginar.
Esse incômodo tem método. Eu sou filho da sociedade do cansaço. Fui gestado, embalado, precificado e distribuído como produto de uma sociedade que mira no desempenho o ideal de felicidade. Que promete liberdade a partir da positividade irrestrita. Sou senhor de mim mesmo e, como escravo deste senhor que tudo pode, me incomoda, me inquieta ler sobre esvaziar-me de mim, da minha imaginação. Cruel. Mas necessário.
Por isso, vivo cansado e com medo, porque o medo é o outro ideal da sociedade que caminha para o fim sem negá-lo; pelo contrário, valorizando práticas que amplificam as vozes desse medo. O barulho, o ruído e o silêncio da sociedade do medo gritam aos nossos ouvidos. Aceitar parece ser a única alternativa. Em manadas, jogamos o jogo informacional, atendendo a ideias que nos permitam o mínimo de prazer para poder anestesiar a dor que não sabemos de onde vem. A salvação virá das nuvens? Digitais? Vem da promessa de longevidade, ainda que de uma existência vazia?
Revendo cenas em minha memória, vejo “Neo” diante de “Morpheus”: vermelha ou azul, a grande escolha. A bem do enredo, o personagem de Keanu Reeves, o artista do filme, decide se descolar da Matrix, aceitar as dores que nos esperam na vida “real”. Embora, do lado de cá da vida, ainda continuemos escolhendo o conforto da pílula azul. Mas, como eu disse, não há conforto nas palavras de Simone Weil para quem vive a ilusão da sociedade do desempenho e da eficácia; o conforto que nelas percebo, se existe, parece estar em Deus.
Voltando-me completamente para minha experiência, reluto em aceitar que a Pedagogia da Serenidade possa ser comparada a uma pílula, seja de qual for a cor. O que chamo de movimento reflexivo talvez seja só uma ilusão de minha imaginação criativa, remédio diário para a dor de minha existência. Ainda prefiro a pecha de resposta particular ao problema da sociedade do cansaço, da qual faço parte.
Nessa resposta, mais uma vez, é sua composição epistemológica que me dá o conforto provisório da salvação. É Krenak me dizendo para sonhar outro final, pensar paraquedas coloridos para a queda que será inevitável. É Paulo Freire me arremessando para o coração da humanidade, movido pelo esperançar e amor pelo outro. É a estética de minha arte, da minha poesia, que me move na travessia incerta de descansar para existir.
Dito isso, a pergunta incômoda precisa ser feita: como o ser total em mim percebe Deus à luz dos olhos e da visceralidade de Simone Weil?
Certa vez, sentado diante da imensidão do oceano Atlântico, a professora Luana Aline, a quem meu apreço e respeito são insondáveis, perguntou-me se acreditava em milagres. Essa pergunta veio antes de ela me contar sobre as aventuras de uma pequena calopsita que desapareceu por semanas e, contra todas as probabilidades, foi encontrada. Olhando o mar, ela também se referia ao feito extraordinário atribuído a Moisés durante o Êxodo. Inicialmente, eu respondi que preferia o Novo Testamento. Uma clara tentativa de hesitação. Ela retrucou: ou você acredita ou não. Percebi, naquela hora, que estávamos falando não de milagres, mas de fé.
A partir desse episódio, expliquei a ela o que Simone Weil entendia por “atenção contemplativa”. Isso me deu margem para explicar o que era a Pedagogia da Serenidade. A resposta dela foi: “Eu entendo e concordo com ela, faz muito sentido.” A validação do outro me trouxe paz, afinal, “todo ser clama em silêncio para ser lido de outro modo”.
Daí em diante, ficamos em silêncio. Prestamos atenção ao mar. Às pegadas de pássaros na areia. Às conchas de cores exóticas. Ao sol que se escondia por entre as nuvens. Em silêncio, prestando atenção, cada um à sua maneira. Terminamos aquele instante.
Esse pequeno relato de existência cabe em outras leituras e interpretações. Mas, para mim, ele revela a inquietude do meu espírito ao ler a teodinâmica de Simone. Para minha interlocutora, pareceu plausível, até simples, mas não simplório.
A pensadora cristã católica Simone Weil via a atenção como gesto de oração. Mas não uma atenção seletiva, como diria a Neurociência. Ela discute a atenção como uma filosofia de existência, uma porta necessária para Deus. Trata-se de entrega profunda, que direciona os olhos e os sentidos para além das coisas superficiais do mundo, para enxergar e encontrar a comunhão em Deus, no seu amor, na sua misericórdia e criação, que estão presentes na nossa própria existência, com suas dores, belezas e aflições.
É a atenção contemplativa que exigirá, antes de mais nada, o desapego de tudo que proclama e centra o “eu” como resposta. É preciso se apequenar diante de Deus. Descriar-se para, só então, permitir que a criação crie a partir de nós.
A descriação permitirá criar um vazio em nossa alma. Esse vazio é abrir mão do poder que é inerente às relações humanas, no âmbito social ou individual. O poder leva à expansão do homem, da sua alma. O poder requer espaço. O que Simone propõe é justamente o contrário. É dar espaço à ausência, para que a graça divina possa agir a partir de nós. É a partir do vazio que podemos alcançar o desapego à imaginação, e este nos permite o perdão. É essa mesma imaginação que nos permite idealizar e criar expectativas sobre o outro. A nossa decepção ou culpa parte do princípio da quebra de expectativa; portanto, o perdão se trata de gesto direcionado ao outro, mas também a si próprio, segundo Han.
Só a alma esvaziada poderá ter espaço para enxergar o belo e a beleza que vêm de Deus. A criação presente em cada gesto, em cada movimento silencioso do universo por ele criado. É ele quem nos permitirá compreender a dor como inerente à vida e à existência. A dor aparece, então, não apenas como algo a ser eliminado, mas como dimensão da existência que pode revelar algo sobre nossa relação com o mundo e com o outro. Por fim, Simone vê como consequência desse esvaziamento a necessidade da inatividade. Algo próximo, talvez, do descanso em Han.
Propositadamente, não toquei no silêncio como uma das teses na experiência/pensamento de Simone Weil. Na apresentação de Han, em sete capítulos, o silêncio ocupa a posição de ligação, dividindo simetricamente a sequência discursiva (atenção, descriação, vazio, SILÊNCIO, beleza, dor, inatividade).
Porque é o silêncio que me interessa. Foi a resposta provisória que encontrei. Retomando a Pedagogia da Serenidade como percepção de si, escrevi que a experiência ou percepção de Deus era, em essência, particular.
Esse talvez seja um primeiro ruído. Mas ele é causado também pela percepção de um cristão e católico de berço, que não se permite explicar tudo a partir da sua própria crença teológica. Especialmente quando, enquanto instituição, essa teologia pode ser instrumento e reivindicar centralidade ou até exclusividade na experiência com Deus. A história da catequização não me apraz como descendente de quilombolas e povos originários, que, sabemos, encontram Deus em outras formas, ritos e experiências. Portanto, Deus, para mim, tem uma essência universal, mas é lido, visto, experienciado de forma plural, pela qual tenho profundo respeito.
Quando Simone Weil aponta para Deus, ela aponta numa direção que me é conhecida, clara, coerente, especialmente quando tomamos a dimensão do Cristo e seu exemplo de vida, ou mesmo da minha devoção à sua Mãe, Maria. Eis aí minha predileção pelo Novo Testamento. Porém, as palavras têm poder. Igualmente, preciso também prestar atenção àquilo que não conheço: na imagem do Mar Vermelho aberto, há mais símbolos do que minha limitada compreensão pode apontar.
Portanto, seria confortável, para dizer cômodo, aceitar a experiência de Deus sob o olhar católico. Não. Para mim, é algo mais. Não se trata somente de como a história é contada, mas do que ela conta, para quem conta, do que se leva em conta, sem perder de vista a alteridade necessária para respeitar quem vê Deus e seu espírito numa árvore ancestral. Digo isso, amparado por quem infere que a profundidade de Deus em Simone, também não coadunaria com qualquer tipo de discriminação ou gesto de poder sobre o outro, especialmente para impor dogmas e perpetuar preconceitos.
O respeito silencioso, portanto, é parte de minha ética universal. Ele me permite, também, ressignificar a leitura de Simone, para quem toda matéria é provida de vida. Portanto, as montanhas, as pedras, o “machado”, a cruz de madeira, tudo tem vida, porém uma vida silenciosa que escapa aos nossos ouvidos emprenhados de barulho contemporâneo.
Este pequeno exercício só prova que o mesmo ser total que leu Simone Weil a partir de Han está absorto no “eu”, na própria visão, nas suas explicações professorais. Neste ponto, Simone me tira a estabilidade, reivindicando a necessidade de que o silêncio silencie o eu, a imaginação, a palavra como ato de afirmação desse eu.
E o conflito aparente me pede a releitura da Pedagogia da Serenidade, porque foi no silêncio da leitura, no silêncio do descanso, silenciando minha poesia, que pude escutar Deus, não importa qual forma ele assuma para você.
Porque, no final, a proposta de Han não é a catequese, mas pontuar o quanto a sociedade do cansaço e do medo nos afasta de Deus. O Deus dos católicos está silenciado pelo mundo digital, que nos nega a experiência do silêncio, pois tudo é informação. Rouba nossa atenção, devolvendo-nos “likes” e prazeres provisórios. Demanda que tiremos a melhor foto para obter mais likes.
Se não fotografarmos o restaurante, o encontro nunca terá existido, porque a memória digital exige registro, qualquer registro, e não há gigabyte que dê para tanto lixo informacional que geramos. Mas não importa. Podemos comprar armazenamento para guardar memórias que não damos conta de lembrar, porque estávamos ocupados buscando o melhor ângulo para registrar.
Mas quem disse que é só Deus, no sentido católico, que tomou um block? Acontece que, no caso dos povos originários, muitos tiveram seus deuses transformados em demônios. Portanto, eles não estão silenciados; alguns foram, há muito, exterminados. O mesmo ocorreu com os povos escravizados que vieram de África. Mas, “graças a Deus”, o sincretismo permitiu a vida e a resistência de suas crenças.
O mesmo vale para os cristãos que cultivam hábitos que vão de encontro à sociedade do desempenho. O adventista do sétimo dia já acostumou a ter que dar explicações porque decidiu se retirar dessa sociedade justo no dia universal da esbórnia: “sexta-feira à noite”. É que a indústria do cansaço não pode parar.
Convocando a palavra, há aqui uma diferença crucial. O silêncio é diferente de ser silenciado. No silenciamento de comunidades e de suas crenças, há uma relação de poder que se estabelece. Esse poder é o mesmo denunciado por Simone a partir de Han. O silêncio experiencial é via de acesso. Não estou dizendo: não fotografe seus jantares. Mas perceba a diferença entre registro e memória experiencial. Fica mais fácil quando julgamos o outro por ser diferente de nós: “Olha o homem filmando o acidentado e nem parou para ajudar.” Mas, muitas vezes, somos nós que alimentamos essa indústria vital.
Para Simone, em seu contexto, os três monstros da sociedade eram o dinheiro, a álgebra e a mecanização, que contribuíam para nos afastar da possibilidade de observar o mundo contemplativamente. O dinheiro como instrumento de poder infla nossas almas e captura nossa atenção e energias. A álgebra, assim como o dinheiro, atua como equalizadora: nela, segundo a leitura apresentada por Han, as distâncias verticais deixam de ser representadas. A mecanização escraviza o homem que parece ter na própria criação seu algoz. Para Han, em nosso contexto, estes monstros tratam-se do capital, da digitalização e da inteligência artificial. A atualização de Han é pertinente quando se percebem as três entidades como um conjunto a serviço do desempenho e da eficiência, escravizando nossa atenção, colaborando com a desumanização das relações e nos tornando escravos de nossa própria criação. A palavra como tecnologia também não iria nessa direção? Existe um limite para a palavra? Há alguma maneira salutar de não nos tornarmos escravos de nossas próprias criações? Qual o ponto de inflexão?
Penso que o que me resta é o silêncio. Foi nele que percebi que a palavra silenciada de Simone também vira poesia. Sim, a poesia como expressão da criação divina, atravessa todo o texto de Simone. E o sopro divino sobre as artes não é diferente do sopro de Deus sobre o espírito humano que busca compreender o mundo por meio da ciência. A potência do silêncio está em permitir a atenção contemplativa, para poder descriar-se, abrindo-se ao vazio da alma silenciada, que agora pode voltar todos os sentidos para a graça divina, para seu amor, sua misericórdia e sua criação. Ciência e religião não estão em oposição para Simone Weil; a investigação científica pode assumir, ela própria, a forma de contemplação religiosa.
Portanto, a minha poesia é ressignificada porque é a criação de Deus que age a partir de mim, para dar sentido à minha vida, para provocar sentidos nos outros, não como instância de poder, mas como exercício de alteridade, de compaixão e perdão.
A poesia começa na atenção contemplativa. Para Simone, o desejo da verdade nasce da ignorância dela mesma. As palavras Deus, verdade e justiça precisam estar formuladas junto com o desejo, para que a alma seja inundada de luz. Desejar sem tentar adivinhar, como diria Simone Weil.
Em silêncio, o poeta precisa aprender a ouvir o silêncio das coisas. O silêncio dos sons é um reflexo do silêncio de Deus. Nas palavras de Han: “o silêncio é o amor”.
Façamos uma pausa. Como exercício, leiamos o texto do “Pai-Nosso” como um texto poético, verso a verso. O que o silêncio dessas palavras nos diz? Me diga você:
Pai Nosso que estais nos Céus,
santificado seja o vosso Nome,
venha a nós o vosso Reino,
seja feita a vossa vontade
assim na terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido,
e não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do Mal.
Só podemos apreciar o silêncio dessas palavras se estivermos em silêncio. Vazios, para deixar que a graça nos preencha. Cada verso diz uma coisa. Mais do que diz, mais do que está escrito. Assim é a poesia, como uma oração.
Para Han, não há espaço para oração na sociedade barulhenta, onde tudo é informação e comunicação. Nesse sentido, é a poesia que devolve à linguagem o estado contemplativo. Não se deveria ler um poema às pressas, como quem lê um anúncio de jornal. Pelo contrário, é preciso sentir a palavra. Viver a experiência a partir dela: “o silêncio é a parteira do novo. Assim, a perda do silêncio leva não apenas à crise da religião, mas também à crise do espírito, ou seja, à crise do pensamento e da poesia” (Han, 2025, p. 91).
Portanto, é preciso descriar a palavra para criar a poesia, e só consigo fazê-lo em silêncio. A música nasce do silêncio. Quantos afetos não nasceram do silêncio dos olhares? Porque foi preciso primeiro prestar atenção.
Silêncio é reconciliação na Pedagogia da Serenidade. Não porque resolva os conflitos da existência, as aflições ou dores. Porém porque permite permanecer diante deles sem que a palavra deva instantaneamente explicá-los, julgá-los ou vencê-los. Reconciliar-se não é resolver-se. É abrir espaço, dentro dos nossos vazios, para aquilo que também existe fora do ruído do eu.
Silêncio para compreender que o passado é uma verdade que não nos cabe, que não se pode mudar. Querer viver nele é encontrar-se preso num círculo de dor, vergonha, culpa ou na ilusão e fantasia de que fomos melhores.
É o mesmo silêncio que escancara o futuro como outro tipo de prisão, pois, igualmente ao passado, o futuro não é. Ele depende fortemente do nosso desejo, das nossas vontades. Isso não significa que a espera não deva existir. Há, contudo, uma espera que não aprisiona. A atenção contemplativa espera sem capturar, permanece disponível sem transformar aquilo que espera em objeto de posse.
Diante dessas impossibilidades entre passado e futuro, só resta o silêncio, pois somente o silêncio permite enxergar o presente como presente de Deus. O presente torna-se, então, para mim, fonte de alegria. É no instante em que me valho da palavra que a própria vida acontece: o agora é fonte de alegria. Silêncio para ver a beleza de Deus nas conchinhas de cores exóticas, que interessam mais que a escolha entre a pílula vermelha ou azul que promete a passagem para fora da Matrix.
E se eu acredito em milagres? Em silêncio, direi: o milagre somos nós!
Para aprofundar-se sobre o pensamento de Simone Weil:
HAN, Byung-Chul. Falando sobre Deus: um diálogo com Simone Weil. Tradução de Milton Camargo Mota. Petrópolis, RJ: Vozes, 2025.