Cheiro de hospital:
travessias necessárias
Fantosmia
Zé Luiz do Candeeiro
A Deus te entrego!
Como na fala antiga
Porque adeus, amiga
Sempre custei a dizer
E quando disse,
mesmo sem querer,
Sabemos que doeu.
As vezes ainda dói,
Mas é sempre menos
do que tentar voltar
para aquele não-lugar
Que se desfez
diante dos olhos,
grão por grão
formando nuvens
de poeira e afetos.
A conta-gotas.
Sob os escombros
pensei haver poesia.
Numa overdose
de esperança
quase me esquecia
Morfina, não cura a dor
Porque também vicia
Da janela,
vejo o monitor,
junto com todos os afetos,
os desejos mais secretos.
Despido, meu rosto refletido
No espelho dos teus olhos
Cansado do som binário
Simulando a vida
Num último suspiro artificial
Entendo que para vida real
Florescer,
preciso dizer: adeus.
Axial
Zé Luiz do Candeeiro
Em paz,
jaz minha alma
inquieta.
Na aurora
do sétimo dia.
Descanso
no livro sagrado,
pelo teu olhar
penetrado,
repousa
minha poesia.
Junto pedaços
desse espelho
oxidado,
nas partes
do teu corpo
partido.
Terei partido
decerto,
antes que
no deserto
tenha me perdido.
Mas é teu abraço,
templo de meu afeto,
sombra de meu desejo
moradia dos beijos,
que se acham há
muito esquecidos.
Mapa para lugar nenhum,
Sem GPS, nem Wi-fi,
Vai fiii, se joga!
Não, a memória.
Sim, há memória.
Nem preto, nem branco
Porque renasço
das cinzas.
Reverto o passado,
reinventando um futuro,
que não dura
mais que o presente
quando sente o teu cheiro,
quando vê teu sorriso,
pois não há pixel que dê
na fotografia de nossos silêncios.
Aleatório, discreto
resignado, peito aberto.
Mil teras por segundo.
Terás retorcido
o meu mundo.
Mas me aventuro,
ainda é sábado.
Reluto,
pois na missa de sétimo dia,
talvez eu não esteja lá.
Céu de Perseidas
Zé Luiz do Candeeiro
Selena,
tu já não orbitas
meu mundo,
embora sejas
morada
de meu
universo.
O mar de
meus desejos
responde
a tuas marés,
isto é certo.
A sanidade
de meus
versos, não.
A loucura
em certas noites
é questão em aberto.
Meu humor e o sono,
meu ritmo circadiano,
meus afetos
são enigmas
na tua presença.
A saudade
na lua cheia
deixa sempre oculto outro lado.
Que está sempre enlutado
por falta de luz.
Mas não por acaso,
é no escuro
que podemos
ver as perseidas
de agosto.