Na boleia da memória:
carregado de sentimentos
Café com leite e paixão *
Zé Luiz do Candeeiro
Antes mesmo de começar
Eu já terei começado
A boca e o coração
Merecem todo cuidado
Com paixão e café
Atrás, ponho meu pé
Para não sair queimado
Depois do aviso dado
Não se trata de apologia
É somente uma história
Que conto com nostalgia
De quando era meninote
Querendo xero no cangote
Mas a mijo ainda fedia
Lembro a hora e o dia
Uma grande realização
Meu pai sempre evitava
Me levar no caminhão
É que não era segredo
Ele tinha muito medo
D´eu gostar da direção
Ele já puxou carvão
E o que pudesse levar
Fruta, gente e água
Pelo o Brasil a rodar
A família sustentou
Aos filhos não negou
O direito de estudar
Meu sonho era andar
Na boleia do mercedão
Numa sexta feira
Fomos ao Boqueirão
De água carregado
Matar a sede do Gado
Lá em Deca de Julião
Guardo com Satisfação
O trajeto da viagem
O descarrego do pipa
Toda aquela paisagem
Rio seco e a caatinga
Belezas de Tupanatinga
Mesmo na estiagem
Porém uma imagem
Ficou destacada
Depois do descarrego
A cisterna esborratada
Com muita hospitalidade
Naquela comunidade
Comer queijo e coalhada
A noite enluarada
Já começava a surgir
Entramos na casa
E uma moça a sorrir
Fiquei logo encantado
O peito desajeitado
Só de pensar em partir
Se eu não queria ir
Era sinal de afeição
O pai dela percebeu
Chamou logo atenção
Tem cabra com fome
Traga café pros “home”
Pai disse: “esse, toma não”
Porém, levantei a mão
Dizendo que eu queria
Pra impressionar a moça
Enquanto o pai dela ria
Não abro nem pro trem
Mas triste de quem
O seu Pai contraria
Segurando numa “rudia”
Num bule de estanho
A xícara fumaçando
Quase levava um banho
Vindo do calor eterno
Das caldeiras do inferno
Eita! Que café estranho
Eu mal tinha tamanho
Mas olhando a criatura
Só fiz pegar o café
Sem ver a temperatura
Dois goles de paixão
Oh, café quente do cão
Quase fui na sepultura
Abalou minha estrutura
O cristão se arrependeu
Quando trisquei a língua
Minha alma derreteu
Engoli olhando pra ela
Rasgando a minha goela
Quando o café desceu
Uma lágrima escorreu
No rosto avermelhado
A boca pegando fogo
Mas engoli calado
Ela disse bem baixinho
Você quer um leitinho
Disse: - muito obrigado
Todo desconfiado
Minha língua pelada
O coração derretido
Meu pai dando risada
Eu me fazendo de forte
Achando que tive sorte
Já chamei de namorada
Ela não disse mais nada
Mas seu olhar não mentiu
O Pai dela acertou o Pipa
Outra carrada, a Pai pediu
Eu fiquei só sonhando
A língua foi sarando
Mas café, só com leite, viu?
*Dedico este Cordel ao meu Pai, ao Pai da Moça e a todos os pais do mundo inteiro, especialmente os que são Pais além da biologia. Seu José Cavalcanti, hoje está aposentado, dirige só por diversão. Me proporcionou o estudo e é meu héroi, mas ainda o contrario, pois tenho muito orgulho da sua profissão.