SERENIDADE COMO PRAXIS:
uma análise praxeológica
SERENIDADE* COMO PRÁXIS: uma análise praxeológica
“Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso” (Mateus 11,28).
A promessa do descanso continua válida, talvez ainda mais necessária que há 2.000 anos. Se Jesus, nas palavras do evangelista Mateus, reconheceu o cansaço espiritual como um fardo, não é de nos surpreendermos com a tese de Byung-Chul Han sobre a Sociedade do Cansaço que vivemos na atualidade.
Duas instituições distintas, mas a mesma mazela, ainda que dimensionadas e colocadas em ontologias particulares. Se nos Evangelhos encontramos um Jesus compassivo, que acolhe, que cura, que observa, mas que também reage às tiranias que seu povo sofria, para Han, o tempo de positividade exacerbada, a ditadura do desempenho, cria, transforma e potencializa estruturas que adoecem e cansam a sociedade.
Como reagir ao cansaço? Com a serenidade necessária para compreender suas estruturas, armadilhas e amarras. Compreendendo que a queda do céu é inevitável, tal qual o final, porém o direito ao sonho de Krenak também é real, ou sonho, acaso nós estivermos dispostos a sonhar, como diria Sidarta. Este é o fundamento da práxis.
Enquanto o Evangelho, a partir de algumas interpretações institucionais, aponta para o Reino dos Céus como espaço de descanso, gosto de pensar que o convite ao descanso e à acolhida são o que mais interessam no exemplo de vida do Nazareno. Do contrário, a promessa de descanso metafísico dá brecha à promessa, à ilusão, à venda de passes para um reino que só chega depois, literalmente, após a morte. Não quero problematizar a morte em si, seja como ponto final ou ponto de partida, mas dizer que antes dela há vida.
Também não é minha intenção discutir teologias. Pensar as práxis, sim, mas o instituto filosófico sobre as religiões deixo para outro dia. Como homem educado no Cristianismo, reconheço minhas limitações em compreender certos percursos institucionais.
Minha intenção é outra: sonhar, como já anunciei, alternativas ao cansaço, à Sociedade do Cansaço; entrar num reino que não dependa da morte, nem do meu adoecimento, mas da minha comunhão sincera. E esse reino pode até estar no céu, pois não tenho problema com isso, embora o céu que vejo e sinto seja maior do que qualquer instituição possa descrever, seja ela pessoa, religião ou livro.
Um reino sem reis. Um reino sem posses, cercas físicas ou digitais; um reino sem fome, sem injustiças; um reino onde o fantástico, mas também o real, coexistam, porque há de haver arte em todo lugar.
Mas este reino não é mais do que o lugar onde caibam seus pés, onde more sua comunhão e compaixão com cada átomo em movimento. Onde possa repousar teu olhar. Um reino onde as teses e taxonomias ideológicas não deem conta da dicotomia, onde o algoritmo nosso de cada dia não seja digital, mas vital.
Serenidade, um movimento, uma pedagogia de vida. Um lugar para o descanso, para a contemplação, onde os fardos possam ser divididos, onde o desempenho não seja a métrica. De fato, um sonho, quase uma utopia, como no sonho de mil gatos de Neil Gaiman. Mas que começa em mim. Parafraseando a minha própria dimensão poética, o que resta, se não aquilo que transcende em nós?
Vivemos em busca da longevidade, mas não sabemos o que fazer com ela. Queremos a estética das canetas “prometedoras”, mas perdemos o hábito de escrever diários sinceros, feitos de habitus e práticas, de participação e engajamento, no dizer de Jean Lave.
Porque não dá tempo, não há tempo. Talvez nisso a Sociedade do Cansaço esteja correta: a ampulheta escorre enquanto abrimos mão do sonhar e sonhamos com realidades virtuais, com longas vidas, conectados à nuvem. De novo, a promessa de um reino que está no céu. Mas bem diferente, agora reconheço, do Reino dos Céus do Jesus original.
Eis o logos, que nasce da crítica. Mas a serenidade também é o lugar ancestral, como retorno a si. Refazer o caminho de volta é a tecnologia, que também faz parte do logos, do saber, como diria Yves. Aqui passamos às técnicas e aos tipos de tarefas, que não se encerram nos gêneros que as definem.
Conjugar é diferente de viver o verbo amar, como diz o novo mandamento. Aqui, um outro testamento, a boa nova na esperança, na autonomia, no amor de Paulo Freire, condensados e imbricados por sua ética universal.
Há um sem-fim de técnicas. Mas gosto muito de pensar numa em particular, aquela que brota da risada de Mariquinha, do Samba de Coco, mestra, patrimônio vivo da cultura de Pernambuco:
Sentir o prazer de pisar e amassar o barro, modelar e construir novas estéticas que busquem a proteção mútua, mas também o autocuidado. Entoar os cânticos naturais, as toadas antigas, que se misturam ao novo e ao belo que emerge da lágrima que transborda do rio de nossas almas.
Quase um evangelho, que não nega nenhum outro. Mas que, sobretudo, não se põe no lugar de credo; antes, talvez, pôr do sol somente. Pois a Serenidade quer misturar poesia e palhaçaria, no mesmo palco, no mesmo terreiro, sob a mesma sombra das amargosas, umbuzeiros e juazeiros, sob o mesmo céu.
Acumular risos, ao invés de riquezas. Conectar-se sem wi-fi, pelo brilho do olho, pelo abraço. Guardar na nuvem da memória coletiva, acessível a todos e todas, sonhos de paz, bem-estar, de contemplação, de comunhão, de respeito, de concórdia, de liberdade para novas sujeições.
Descansar. Partilhar. Contemplar. Esperançar. Gênero para os Tipos de Tarefas Primordiais, que carecem do saber-fazer que é ancestral, existencial, universal. Como amor requerido e proclamado como novo mandamento. Que habito o sagrado, os sagrados de cada um e de cada uma.
Feita essa breve análise praxeológica, que não é mais que um sonho e, por isso, já basta, talvez possamos, com serenidade, dizer: vinde a mim, todos e todas que estão cansados; juntos, podemos dividir este fardo. Ele não é leve, porque eu sei que também canso, mas juntos podemos alcançar este reino que está no céu de cada um de nós.
Epílogo
Comecei citando o Evangelho de Jesus, segundo Mateus, que ecoa em mim. Termino ouvindo mentalmente a Canção “Pausa” de Tó Brandileone e Vinicius Calderoni, interpretado pela Banda brasileira “5 a Seco”.
Pausa
(Tó Brandileone e Vinicius Calderoni)
Onde eu possa descansar
daquilo tudo que já sei
de todo ouro que busquei
do vício de me reinventar
Onde eu possa resgatar a dádiva de ser ninguém
de nunca mais falar de mim
procuro esse lugar
Pausa para respirar
do permanente vir a ser
do desamparo de não ter
do desespero de esperar
Pausa para repensar
o que merece me mover
e esse lugar, se um dia houver
eu chamarei de lar
E quando um dia voltar a perceber
a pulsação se acelerar
eu voltarei a percorrer
o mar aberto do querer
sem nunca esquecer
pra onde posso voltar
*Pedagogia da Serenidade é um movimento de presença reflexiva própria, que habita o ser poeta&professor.