Esperando aviões:
um conto para Vander Lee
Esperando aviões
(Para Vander Lee)
Zé Luiz do Candeeiro
Subiu as escadas do consultório, repetindo no pensamento “Onde Deus Possa Me Ouvir”, um hino para quem conhece a obra do saudoso e imortal cantor mineiro Vander Lee. Aquela fora a sessão mais dolorosa de todas. Admitir que precisava dizer adeus a sentimentos, padrões antigos, repetidos, não “por” ou “pelas” pessoas, mas por si próprio.
Já no Consultório, novamente Vander Lee vinha à sua mente, como um mantra. Dessa vez, a melodia de “Meu Jardim” lhe lembrava que era tempo de podar o que doía e cuidar de si:
"estou podando o meu podando o meu jardim,
estou cuidando bem de mim". (Meu Jardim, Vander Lee)
Em lágrimas, no divã, olhava para o teto enquanto proferia, com clareza, o luto que nunca ousara cumprir:
— Basta. Não quero mais isso para mim. Adeus, Clara. Luz dos meus olhos, hoje morre o instituto da espera que me acompanhou por toda a vida. Símbolo de minha fantasia mais recôndita. Adeus, Pedro e seu ciúme tóxico. Adeus... Adeus...
Uma série de lutos e nomes. Mas ele sabia qual mais importava.
Ao se despedir, diante dos olhos de seu terapeuta, Eduardo sentiu todo o peso libertador daquele instante. Desceu as escadas e, antes de ir para casa, queria fazer um gesto sublime e desnecessário: ver o pôr do sol no alto do Cruzeiro. Uma caminhada de alguns quilômetros. Aquele alto era o ponto mais alto da cidade, como Hotel Globo onde conheceu Clara.
Era sublime porque ele compreendeu que, para um novo dia nascer, o sol tinha que se pôr e a noite cumprir o seu rito. Desnecessário, pois poderia ver o pôr do sol de qualquer lugar, mas queria distância da cidade, como se fosse possível. Tinha que se apressar, o pôr do sol não espera e a espera já não lhe combinava. Seguiu para cumprir o rito despedida: adeus, Clara. Repetiu baixinho.
Desnorteado, saiu do consultório e imaginou Vander Lee rindo dele ao som de “Sambado”: "meu carro é uma escola de samba, tá todo sambado na passarela". A cômica canção aludia à situação de Eduardo, que também admitira, naquela sessão, sentir-se quebrando, mas feliz, como se estivesse vivendo um carnaval. Riu de si, sem culpa, ele estava sambado mesmo.
Na porta do consultório, olhou para uma das avenidas que davam direto para a casa de Clara, a oeste da cidade, onde o sol já começava a se pôr. Estava seguro do que dissera, e a dor e o cansaço que sentira vinham da coragem de verbalizar tudo naquela sessão. Sentiu sua “Alma Nua” e pediu:
"Ó, Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra Tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes" (Alma Nua, Vander Lee)
Decidido, foi cumprir sua missão: deixou o caminho habitual de casa e seguiu rumo ao Cruzeiro.
Andou algumas quadras e sentiu uma estranha liberdade, pois estava longe da casa dela. Ele decidiu-se naquela sessão, disse adeus. Porém um raio de sol já alaranjado trouxe uma imagem ainda mais cômica para aquela subida ao Cruzeiro no fim da tarde: era ela, que vinha de algum treino físico, deduzira pelos trajes. Impossível, ele pensou, devia estar alucinando. Em milissegundos, atordoado, Eduardo lembrou-se da voz rasgada de Elza Soares cantando “Subindo a Ladeira” e sorriu com a coincidência:
“Quando te vejo subindo a ladeira
Ponho minha roupa de domingo, toco violão
Lanço meu sorriso de Marcos Palmeira
Mostro meu corpinho fabricado pela malhação.” (Subindo a ladeira, Vander Lee).
Sem sorriso de Marcos Palmeira, Eduardo encontrou a personificação de sua despedida. Ali, em carne, osso, afeto e beleza, iluminada pelo sol da tarde. Como um disco de Vander Lee da primeira à derradeira faixa: que encanta a gente, porém que se acende quando ele cantava “Iluminado”:
“Vi o meu sentido confundido, iluminado,
vi o sol enluarar quando vi você." (Iluminado, Vander Lee)
O sol enluarou. Não teve tempo sequer de pensar. Foi em sua direção como um velho conhecido que já cantara “Pra Ela Passar” no carro, enquanto ela ria:
"Abro a janela, tudo escuro
Fecho a janela, todo puro
Esperando só ela chegar
Acendo a vela, iluminando
A passarela e vou jogando
Flores pra ela passar" (Pra ela passar, Vander Lee)
O tempo passou correndo, cada memória. Só ali ele se deu conta que já fazia dez anos da partida de Vander Lee. Ele também era o mesmo de dez anos atrás, quando o romance avassalador e uma escolha aparentemente racional dilaceraram suas vidas, aprisionaram o afeto e a promessa de um futuro a dois. Ela também era a mesma que, agora, dez anos depois, era uma mulher mais madura, independente e que dera a volta por cima, apesar de Eduardo.
Dez anos sem Vander Lee. Mas a vida continuou e talvez Clara tenha cantado “Fui”
"Pode parecer cruel, mas vou
Eu não te desejo mal, mas vou
Me agarrando céu em céu pra outra real
Posso até estar pinel, mas vou
É porque desejo mais que eu vou
Te mando no aniversário um cartão postal" (Fui, Vander Lee)
Enquanto Eduardo cantava "Faro":
"Quando caminho no escuro
É por você que procuro
Somando tudo é tão raro
Meu paladar e seu faro" (Faro, Vander Lee)
Não era um encontro de duas pessoas magoadas ou com ressentimentos, mas de duas almas que sofreram, cada uma na sua medida, a seu modo. Que penaram com os traumas daqueles tempos, mas também com os de outros tempos, antes e depois. Por isso, talvez, a vida tenha tratado de reaproximá-los. Como em "Desejo de Flor":
“As flores vão nascer de amores
Vãos, viver
E ninguém vai poder mais amputar sua raiz
O galho que crescer
Os ventos vão reger
E quem sabe dançar a sinfonia os homens gris
Há margaridas bêbadas sobre os balcões
Damas-da-noite no calor de explosões” (Desejo de Flor, Vander Lee)
Não naquele final de tarde, mas há algum tempo recente. Não naquele fim de tarde, mas talvez há alguns meses antes. Talvez numa troca de mensagens, o afeto e a confiança recíprocos, o espelhamento de ideias: tudo funcionava, até o desejo, com uma tensão velada que, sem o “n”, viraria tesão.
Eduardo, pensou em uma das últimas canções de Vander Lee, uma obra-prima:
"trem do desejo
penetrou na noite escura,
foi abrindo seu censura
o ventre da morena terra". (Trem do Desejo, Vander Lee)
Por mais que ele quisesse, não dava. Afinal de contas, onde antes foi uma paixão, agora era só a espera da qual Eduardo decidiu se libertar. A amizade dos dois fazia sentido, por mil razões com as quais até ele concordava. Razões que não o impediam de habitar o lugar da espera, que doía mais do que qualquer sessão. Por isso, parou e caminhou em sua direção.
No reencontro, ali, após a mesma terapia em que dolorosamente assumira a necessidade de dizer adeus, lá estava ela, em carne, osso, afeto e beleza.
Não fez nenhuma cobrança. Não pediu nada, embora no seu íntimo quisesse cantar para ela "Breu":
“o aluguel venceu,
meu time jogou,
tudo aqui é seu
e você não ligou". (Breu, Vander Lee)
Em vez disso, preferiu o silêncio da contemplação. Assistiu o pôr do sol do seu sorriso. Após afetos partilhados na surpresa, deixou a ladeira do cruzeiro de lado e seguiu junto a Clara, quase como em um cortejo até a casa dela.
Clara era casada e ele não queria complicá-la. No cruzamento, olhou na direção contrária, como se visse a si mesmo no outro extremo, saindo da terapia e olhando para aquele ponto onde estava agora. Viu a si mesmo, pensando “— nunca mais no consultório”, enquanto a outra versão visceralmente dizia “—olha eu aqui de novo”, e ambos diziam: — que ironia filha da puta dessa doce, dura e desejosa vida. Ali, romperam-se passado, presente e futuro. Nesse instante, cantou baixinho "Aquela Estrela":
"Aquele jeito que você me olhou
Varreu meu pensamento
Todas as coisas saíram do chão
Eu me esqueci de tudo
Antes que eu me desse conta
Já era seu meu querer
Foi como o Sol que desponta
Numa montanha dourada
Na terra do faz de conta
Pra me banhar de prazer
Mas o vazio que você deixou
No meu apartamento
Quase transbordou meu coração
Meu mundo ficou mudo
Você foi pra tão distante
E eu quero tanto te ver
Por isso não se espante
Se numa noite bela
Aquela estrela brilhante
Em sua janela bater" (Aquela Estrela, Vander Lee)
Em poucos minutos conversaram sobre a vida. Dois bons amigos. Ele olhou para ela, para cada centímetro de sua alma, respirando sua essência e observando os objetos em volta. Era um ritual de despedida da forma mais cruel possível, pois ele simplesmente não decidira deixar de vê-la. Estava diante dela, queria ficar ali, sabia que nela havia prazer em sua presença, mas sabia também que aquele personagem era loucura demais, até para um poeta louco.
Mas, Vander Lee já havia avisado que os “Românticos” são loucos:
“Românticos são poucos
Românticos são loucos desvairados
Que querem ser o outro
Que pensam que o outro é o paraíso
Românticos são lindos
Românticos são limpos e pirados
Que choram com baladas
Que amam sem vergonha e sem juízo
São tipos populares
Que vivem pelos bares
E mesmo certos vão pedir perdão
Que passam a noite em claro
Conhecem o gosto raro
De amar sem medo de outra desilusão
Romântico
É uma espécie em extinção
Romântico
É uma espécie em extinção
Românticos são poucos
Românticos são loucos como eu, como eu” (Românticos, Vander Lee)
O clima mudou com a chegada do filho mais velho de Clara que era amigo de Catarina, sua filha, como a filha de Vander Lee. Eduardo sentiu que era hora de dizer adeus, não o da terapia, mas o daquele ritual prático para evitar constrangimentos.
Partiu. Quase um mês depois, talvez um ano. Não sabia. É que o tempo não fora linear depois daquele encontro orquestrado pelo “destino”. Outros afetos, outras mensagens, outras esperas.
De volta à terapia, só queria contar aquela estranha coincidência da vida e o que ela produziu. Após descer as escadas, já certo do que dissera na sessão passada e tendo reafirmado novamente seu “adeus a Clara”, não olhou para uma das avenidas que levavam até onde morava a mulher de sua vida. Em vez disso, olhou na direção contrária, e foi direto para uma floricultura. Lá comprou flores e percebeu que não tinha o que fazer com elas.
Quis que Clara aparecesse casualmente, pensou em ir ao Cruzeiro. Ao invés disso, resolveu-se, foi até a casa de Clara, não sem antes se certificar de que ela poderia recebê-lo. Um detalhe apenas, pois estranhamente depois daquele encontro, Clara decidiu finalmente se separar do seu antigo marido. O fato acendeu mais uma fagulha no velho fogo-fátuo da espera.
Não foi declarar-se, nem pedir para voltar, nem sequer dizer que tinha partido. Mesmo Clara solteira, o que fazia da espera uma tentação para Eduardo. Mas, para ele, bastava dizer que tinha ido. “Siga em Paz” lhe servia de despedida:
“Saiba, meu amor, meu coração só sabe se entregar
Basta um chamado seu que eu não demoro a chegar
Tudo que separa, nos prepara para um novo encontrar
Quando você partir, não quebre as pontes que atravessar
E vem você dizer
Que o meu amor não te apetece mais
O que posso fazer
Além de desejar que você siga em paz?” (Siga em paz, Vander Lee)
Naquela mesma noite, estreou no palco dos Poetas Loucos, um sarau planejado meses antes. No dia seguinte, foi ao aeroporto levar sua filha Catarina, que iria viajar. Numa mensagem casual, o habitual atravessamento, pelos tantos códigos que os dois usaram para se comunicar/confundir; mas, nele, estranhamente, não havia mais espera.
Porém, antes de retornar à cidade, comprou um lanche para viagem. Dessa vez, foi novamente direto para casa de Clara. Um ato definitivo? O reencontro? A espera acabou?
Lá se pôs novamente ao estranho ritual de nada cobrar. Só o lanche, a conversa e o afeto. Mas agora ouviu de perto ela dizer que já pensara na possibilidade, mas que pondera inúmeras questões. Nessa hora, sentiu-se como espectador ouvindo uma orquestra executando "Pensei que fosse o Céu":
“Estava ali, me confundi
Pensei que fosse o céu
O azul do mar me chamou
E eu pulei de roupa e de chapéu
A onda veio e me levou
Desse lugar e agora sou
Uma ilusão, a solidão é meu troféu
Aquela foto amarelou
O riso no meu camarim
Felicidade bate a porta e ainda ri de mim” (Pensei que fosse o céu, Vander Lee)
Conteve-se. Disse que sabia, que estava feliz pela confirmação, mas que não habitaria mais a espera. Como gesto derradeiro, colocou a última carta sobre a mesa. Reuniu seus “Cacos”:
“por quem você mal viu
e até chorou
quando partiu
que procurou
mas estava a mil
agora esquece essa intenção
que a vida acende
o candelabro da razão
juntando outros lados
da mesma questão,
as cartas na mesa
e as cinzas no chão,
dispenso as certezas
mas presto atenção
recolho meus cacos
e deixo nos braços da canção” (Cacos, Vander Lee)
Pediu que fizessem um último gesto: partilhar uma fantasia enquanto comiam pudim de sobremesa. E se nós, além de dois, passássemos a ser um “nós”? Eduardo sabia que pedira demais naquele dia, mesmo que em um faz de conta. Depois de vislumbrarem o ato, ainda que na imaginação, e exporem regras e condições, ele curiosamente aceitou todas elas, mas, sem esperar o sonho lúcido findar, disse em pensamento:
— Por ora, me despeço não com o doce do teu beijo, mas com o doce do açúcar. Amanhã, teremos acordado juntos ou reinventado essa história a sós, ainda que devagar ou de um jeito diferente. Onde o pôr do sol não nos pregue peças, onde o meu luto não vire motivo para visitar o altar dos teus olhos. Estou pronto, por isso vou.
Mas a ela só disse adeus.
No domingo, após três dias de silêncio, Eduardo pensou em escrever um poema sobre imaginar um futuro. Mas, poeta louco que era, não fez aquela carta-poema para seu amor. Em vez disso, escreveu sobre aviões, ouvindo “Esperando Aviões”, de Vander Lee, poeta louco que cantou o amor, que encantou-se há 10 anos, mas vive para sempre por meio da memória de Eduardo e tantas outras pessoas, entre um verso outro ele escreveu seu último poema para Clara...
As horas se arrastam
como aviões cortando o céu.
Deixando um rastro mudo,
sem mensagem alguma.
Há fumaça, há fogo,
mas nenhum sinal.
— Respire, devagar.
Diz a flâmula
para o desejo
que inflama.
— Inspire, devagar.
Diz o Doutor
para o desejo
que se fez flor.
Tempo que corre devagar.
Porém, relativamente veloz.
É que no altar
todos tremem de medo.
Quem terá que dar seu filho.
Quem terá que dar a própria vida.
Quem consumará o rito
de partida ou de chegada,
há sempre medo na entrada.
Mas há uma estranha paz
de saber que os dias passam
e os aviões não voam mais.
Depois de ler o poema, riu de si mesmo:
— É louca ou não é, essa nossa vida?
E assim, Eduardo se despediu de Clara, para quem sabe ou nunca mais.
FIM.
P.S.
Setlist das canções na ordem de citação, cujos direitos são reservados à Vander Lee/e ou seus respectivos titulares:
1. Onde Deus Possa Me Ouvir
2. Meu Jardim
3. Sambado
4. Alma Nua
5. Subindo a Ladeira
6. Iluminado
7. Pra Ela Passar
8. Fui
9. Faro
10. Desejo de Flor
11. Trem do Desejo
12. Breu
13. Aquela Estrela
14. Românticos
15. Siga em Paz
16. Pensei que Fosse o Céu
17. Cacos
18. Esperando Aviões