PEDAGOGIA DA SERENIDADE:
Da relação pessoal ao saber à relação pessoal no/com/a partir do mundo
PEDAGOGIA DA SERENIDADE: Da relação pessoal ao saber à relação pessoal no/com/a partir do mundo
“O que me resta
não é o que falta,
nem o que sobra.
É o que transcende.”
“A morte social dos sujeitos começa ou acontece quando estes são excluídos do convívio institucional.”
O recurso das aspas e do itálico cumpre a função de informar ao querido ou à querida leitora que se trata não de uma citação literal, mas de uma paráfrase que reproduz quase literalmente o pensamento de Yves Chevallard sobre o estatuto das instituições na nossa relação de existência “no” mundo. Talvez, do ponto de vista metodológico, fosse mais elegante usar o que rezam as normas vigentes da Associação Brasileira de Normas Técnicas, que chamamos, no meio acadêmico, de “ABNT”. Acontece que, nesse texto, tudo é método, inclusive sua falta ou recriação.
Método na escrita, no espaço/meio da publicação, na escolha dos objetos que irei tratar: uma praxeologia. Contando, espero que gentilmente, que o ou a leitora já tenha lido sobre Serenidade e Instituições e sobre Serenidade como Praxis; caso não, pode fazê-lo depois, se desejar. Quando nomeio “objetos”, “praxeologia”, “instituições”, preciso dizer que se tratam de conceitos, noções lidas a partir da Teoria Antropológica do Didático – TAD, do mesmo Yves.
Esse cenário todo serve para anunciar que, no presente texto, passarei a tratar de um objeto novo para mim, que nasce no meu processo social e particular de (re)existência “com” o mundo.
De fato, a intenção é dar nome e dizer do que trata a “Pedagogia da Serenidade”. Mas por que abrir o texto falando da TAD? Porque ela tem sido a principal lente através da qual leio e ajo no entorno que me cerca, especialmente na academia, que envolve, para mim, a Formação de Professores que Ensinam Matemática, o conceito de Probabilidade, os processos de ensino e de aprendizagem da Matemática, de modo geral.
Porém, a minha existência é maior que a universidade. E, se o que me resta é o que transcende, o resto é muito e vale a pena. Não é sobre uma ruptura em ato, até porque o Modelo de Análise da Dimensão Cognitiva (MAC), desenvolvido por mim e alguns amigos e amigas, tem na TAD uma estrutura quase dorsal. Trata-se de dizer que, além da TAD, que me serve na Academia e na vida, há outros caminhos pelos quais me enveredo, consciente ou inconscientemente, às vezes aleatoriamente, mas também espiritualmente.
Pois bem, agora que as cortinas foram descerradas, passo ao escrutínio da interpretação, do julgamento ou da análise, que se instala no córtex pré-frontal, a partir da atenção que o(a) leitora mobiliza e do conjunto de emoções e sentimentos que essa leitura causa. Sim, o nosso cérebro e todo o sistema nervoso, cada célula do nosso corpo que não se encerra nele mesmo, que acompanha a consciência, as crenças e até os afetos — pois sua leitura pode ser só um gesto de cortesia a este poeta/amigo/amor/professor/desconhecido que conheceu em algum ponto de sua vida — são parte desse processo existencial, que agora se traduz nesta leitura. Porque, apesar dos mecanismos biológicos e psicológicos, somos sociedade, somos espiritualidade, somos parte do universo atômico e subatômico que vibra neste instante.
Talvez seja isto a Pedagogia da Serenidade, que chamei de “movimento de presença reflexiva própria, que habita o ser poeta&professor”. Dito de outra forma: o termo PEDAGOGIA refere-se à minha essência, esse é meu “eu” docente, porém trata-se de uma negação da própria palavra, isto é, não pretende, portanto, ser um método de ensino ou metodologia para, mas um processo existencial, logo reflexivo, uma praxeologia própria de ver, ler, escutar e estar “a partir” do mundo. E o fato de partilhá-la não tem mais que o mesmo objetivo que tem um poeta ao parir um poema: sentir, escrever, provocar ou não sentidos, publicar e deixar que quem se aventura na leitura faça o que bem entender com ela, inclusive nada.
Mas e a SERENIDADE? Aqui talvez esteja toda a minha poesia como esforço pessoal de compreender tudo o que tenho vivido no presente. A partir de tudo o que habitei no passado e sobre o futuro que construo a todo instante. Para entender o objeto e o papel dessa palavra, teremos que compreender sua escolha.
Há pouco mais de um ano, quando decidi iniciar a minha jornada de sobriedade, que está igualmente relatada em Retorno: uma jornada sobre serenidade e sobriedade, eu descobri A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han. A tese central do livro, já exposta por aqui, trata de uma leitura filosófica e visceral dos nossos tempos. O que me afetou profundamente foi ler, já na abertura, que o mal do nosso tempo, do início deste século XXI, eram as patologias neuronais. E, para que fique mais claro, agora sim, um trecho literal do autor, que, embora longo, será didático:
Cada época possuiu suas enfermidades fundamentais. Desse modo, temos uma época bacteriológica, que chegou ao seu fim com a descoberta dos antibióticos. Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral. Graças à técnica imunológica, já deixamos para trás essa época. Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (Tdah), Transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a Síndrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções, mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade. Assim, eles escapam a qualquer técnica imunológica, que tem a função de afastar a negatividade daquilo que é Estranho. (Han, p. 10, 2015)
Sim, eu concordo com Han ao apontar as doenças neuronais como uma enfermidade do nosso tempo. Afinal de contas, o meu processo de sobriedade começa quando eu procuro ajuda na terapia, para poder aplacar uma dor que esmagava meu peito, sem necessariamente parar meu coração, mas que estava deixando minha vida completamente paralisada. Ainda em Han, talvez fosse meu corpo resistindo à minha transformação num morto-vivo.
Seguindo a tese, Han irá argumentar que o problema não é imunológico, ou seja, não se trata de um organismo estranho que vem nos adoecer, mas do excesso de positividade que circunda os nossos tempos, impedindo filtros que nos garantam tempo para contemplar, compreender o que está ao nosso redor e o que emana a partir de nós, para descansar.
Trata-se, portanto, de um tempo em que tudo ou quase tudo é aparentemente bom e permitido. Desde que atenda às necessidades do desempenho, da produção, da supervalorização do capital, que se apodera, inclusive, da imagem, do pensamento, através do tsunami diário de informação ou desinformação, ao alcance não só da palma da mão, mas dos olhos, da nossa cognição, portanto, do cérebro inteligente. É esse excesso, essa ditadura de positividade, de desempenho, que nos leva ao adoecimento do cérebro e da alma. Pois, para atender ao ritmo frenético, não podemos parar.
O espaço mercadológico das tecnologias digitais vende a ideia de que o tempo é precioso para a vida, mas não as pessoas, já que estas podem ser anuladas em detrimento do progresso tecnológico que só visa ao lucro. Portanto, ao invés de ler, podemos resumir a leitura; ao invés de escrever um texto, podemos inserir um prompt que descreva aquilo que queremos. Não por acaso, as big techs, que representam grande parte desse mercado, assumem o discurso da otimização, da produtividade e da longevidade como o futuro da humanidade.
Vivemos uma vida desnuda. Tal qual Nietzsche diria, nas palavras de Han, a morte de Deus levaria à ascensão da saúde como uma deusa. Nesse processo, para Han, na sociedade do trabalho, do desempenho, as instituições religiosas também falharam, e o que resta é uma sociedade que reinventa seus agentes de coerção, travestidos de liberdade.
Diante desse cenário de escárnio, achei-me impelido a pensar sobre e, para mim, não bastava abraçar a tese do descanso como remédio necessário para enfrentar e viver a Sociedade do Cansaço. Havia que criar uma alternativa que não reduzisse a vida à Academia, às Religiões, ao Trabalho e a outras tantas instituições necessárias para a vida social, mas que pudesse apontar uma direção a partir e apesar delas.
Qual alternativa à Sociedade do Cansaço?
Era a minha questão geratriz. E, como tal, abriu uma série de outras questões que tenho me disposto a enfrentar, responder provisoriamente, na busca por uma resposta-coração, saudades de Yves.
A resposta começou a se processar no meu interior. Precisava de uma palavra que remetesse a essa busca. Na tese de Han, o descanso não é só funcional, isto é, descansar para recuperar as forças e voltar à produção. Ele exige, dentre outras coisas, o direito à contemplação, inclusive ao tédio profundo, como mecanismos de contraposição à lógica do desempenho e da produtividade que produz e sustenta a sociedade do cansaço. É preciso parar, desacelerar e aprender a me relacionar com o tempo de uma forma diferente: não é porque posso tudo que devo!
Depois de uma busca contemplativa, meu universo cognitivo apontou para Paulo Freire e suas tantas Pedagogias, que se resumem num movimento de vida em prol da Educação. Mas pedagogia de quê, se o próprio mestre já havia deixado tantas reflexões belíssimas que partem da denúncia à produção de oprimidos e findam com a autonomia, sem abandonar a esperança? Portanto, foi a própria sede da busca que mobilizou a resposta:
Serenidade.
Mas essa palavra não veio sozinha. Veio de uma conversa na praia, com Abraão Romão, que me falou sobre os gatilhos da palavra “calma” como sendo um subterfúgio para tolher, castrar e até excluir. Porém, a serenidade, ele concordou.
Embora não precisasse dizer, que se diga. O termo serenidade passou a se apresentar para mim como um eixo ontológico, epistemológico, praxeológico e político. Mas não puramente ideológico, como manual de vida para outrem, e sim de inspiração, especialmente própria.
A ontologia da serenidade exigiu a arquitetura do que é. Portanto, a Sociedade do Cansaço também perpassa a necessidade da leitura de outros mundos possíveis, onde talvez seus efeitos nefastos ainda não alcancem. Dito de outro modo, a serenidade não se encerra no direito ao descanso e à contemplação; ela exige outras coisas porque ela é movimento de existência.
Onde a Sociedade do Cansaço não alcança?
Outra pergunta fundamental. E a resposta é ancestral, parte dos que vieram antes, do que está, do que é e do que será, a partir de mim, através de mim e com tudo o que me cerca. Portanto, eu precisava aprender sobre outras epistemologias.
Assim, a Serenidade reclamou o direito ao sonho, de sonhar novos fins do mundo. A epistemologia da serenidade é a própria natureza que habita na comunhão com tudo o que nos rodeia, que nos toca, nos afeta, nos orienta, nos constitui. Essa epistemologia está nas palavras e na militância de Ailton Krenak e, através dele, a serenidade quer honrar todos os povos e espíritos ancestrais como fonte e matéria para o conhecimento.
Por isso, a epistemologia da serenidade comunga a existência no mundo como território, território de Milton Santos. A natureza é espaço onde habita a vida.
A serenidade, agora, se desenha como prática. Já explorada em A Serenidade como Praxis. Mas deixe-me ampliar seu processamento. A contemplação e o sonho são lugares que nos levam a compreender o que é necessário para que espírito, corpo e natureza coexistam em comunhão.
Quando digo que meu universo onírico particular está conectado com a minha existência, seja como resíduo da vigília, seja como fruto da memória, seja como trabalho dos arquétipos, ele pode ser terapêutico quando eu presto atenção nele, quando paro para contemplá-lo. Daí, ele passa a ser, para mim, fonte de conhecimento sobre o passado, presente e talvez sobre o meu futuro, não como predição, mas como experiência a partir do presente. Portanto, torna-se cósmico e ancestral a partir da minha própria existência.
Quando reconheço que, ao interpretarmos personagens que habitam a sociedade do cansaço e suas instituições, por vezes precisamos ter a serenidade de perceber o quanto da minha energia vital é dedicada a esses projetos e quanto realmente é dedicado a mim, ao meu autocuidado, ao cuidado com o ambiente que me cerca. A técnica, nessa praxeologia, começa da pergunta:
O que sou capaz de mobilizar por mim?
É como a busca de tornar o mundo melhor a partir dos mundos onde meu ser habita.
Mas serenidade é também aprender sobre lutos e sua não linearidade. Pois, na Sociedade do Cansaço, o que adoece não vem de fora. Portanto, é preciso dizer adeus e desapegar de imagens nossas quando esse luto é processado.
A Escola, enquanto chão institucional, pode ser também um espaço de serenidade. Aprender sobre os silêncios, ensinar sobre o toré e a dança da chuva, sem ampliar o vazio de tantos preconceitos impostos pela modernidade. Reconhecendo o que é inteligência sem delegá-la às máquinas que maquinam nos algoritmos da imbecilidade de seus detentores; não ver a salvação nas nuvens digitais. Trocando a realidade virtual pela experiência de existência. Elevando os índices de emancipação, ao invés da lógica de metas, descritores, rankings que nada ensinam.
Aqui é preciso expor uma contradição, porque na Serenidade também há espaço para isso. Não se trata de criar um embate entre humanidade e tecnologias digitais. Mas é perceber o papel, a finalidade e a responsabilidade sobre seu uso. A correção ortográfica de um algoritmo não anula a leitura humana do Professor Marcelo Medeiros, cujo tempo de resposta não atende à lógica da sociedade do cansaço. A busca infinita por energia não pode pôr em risco a vida do planeta.
Aqui chegamos ao coração da tese política da serenidade. Ela é o esperançar de Paulo Freire, em sua Pedagogia da Autonomia, mas ela é também a esperança como ação para vencer a sociedade do medo, que Han denunciou em 2024.
Por isso, ela se chama Pedagogia também, pois para Paulo Freire “não há docência sem discência”. Não é assumir o direito ao sonho em Krenak como cura para a sociedade do cansaço, é sobre reaprender, mudar nossa relação pessoal com os saberes, para quem sabe aprendamos a ouvir Krenak e tantos outros ancestrais.
Daí, poderemos olhar para Mariquinha do Samba de Coco, patrimônio vivo da cultura de Pernambuco, como caminho ontológico, epistemológico, praxeológico e político da Pedagogia da Serenidade.
Posto o objeto em camadas abertas e quase nunca encerradas. Eis o mais próximo do que posso definir como minha relação pessoal com o saber que se transforma numa relação pessoal no/com/a partir do mundo.